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segunda-feira, dezembro 06, 2010

Pensaram um dia, uma memória.

Esta é aquela palavra em que nos sentimos confortáveis. Quando toco na tua falta e o ar eléctrico povoa a nossa sede de amor. Toco no teu desconforto eo que sinto é um rosto adolescente em que te sinto, assim, adolescente.

Diziam. Dizias. Demoradamente sentia que o calor dos dedos te inundava em conflito e nenhuma ternura ou sorriso nos devolvia um futuro de velhice transparente e cantado. Demoradamente sentia o medo a chegar.
A velhice escapava na cidade e nas pessoas e na sombra das teclas. Isoladas no oceano. Demoradamente sentia a velhice a crescer, aceitando que todos os homens me temiam, pois fui eu o único em que a promessa se isolava na sombra das teclas.
No oceano. Ontem sabia-te, hoje és apenas desconforto onde me inclino e espero, onde irás conhecer o teu novo nome, onde o amor e o amador são o mesmo, em silêncio, isolados, na velhice em crescendo, de um oceano.
Diziam. Dizias.

E hoje que é aquele dia, tenho a tua memória cravada nos dedos e o cheiro do mar confuso, para onde olho, confortavelmente confuso, enquanto espero que a velhice me deixe novamente sonhar. Hoje que é aquele dia, a paixão encontra-me já velho, dobrado em solidão, com a boca isolada e o teu toque estendido, a meu lado, à espera.

sexta-feira, junho 04, 2010

Dentro do mar

É sempre uma chuvosa noite de inverno, quando ouço o murmurio do tempo
esquecido em ti. Bate em ti esta luz seca
e a cabeça fica muda com o peso da saudade. Ao longe, sinto-te num deserto, com flores hipnóticas e fontes poéticas.
É sempre bom cantar como um órfão
que respira vitória, com as pregas na cara
e as medalhas no peito de sal e teias.
Mulher de pavor, foste contornada para dentro, numa alhada
em dedicatória pensada. Estiveras só, no leito do rio que transbordava
sangue quente cor de vinho bebido pelos peixes
e pelos seixos em ânsia, em temor.

Em cada passo teu vive a ferida de uma geração, de cinzas
nocturnas, de sono e silêncio, e húmus estremecido
em palavras não ditas. Porque quem não ama não sonha, não ilumina as mãos
pela beleza dos dias e morre inspirado, contaminado, por
todas as vozes que lhe sussuram o único ofício que não domina.

Que doce é a destruição do tempo
quando me embrulho no teu sorriso e induzo a semente de estrelas
iluminadas pela noite em brilhantes gotas embaladas pela tua mão, sobre mim, sobre o mar.
Que doce, essa tua melancolia
crescente, sobre o sono perdido, na tua voz primitiva, de se ser amor
e sempre a cantar, por entre implacáveis ilusões de vidas perdidas.

Parte agora que já é dia.
Agora, que me gritam a realidade arrancada
e o som do teu fogo se extinguiu debaixo da minha língua, ao partir
no deserto insano de ti. Ouço apenas o teu hálito, o interior do teu corpo morno.
Para sempre há sempre uma voz
que transfigura a pedra, que dá vida às sombras, que estremece os corpos.

E eu sigo o teu som, num errante exercício de beleza, porque sem ti
não há mar, e é onde começa e acaba o mundo, de mão na mão, naquele lugar
onde o pensamento é uma canção e o teu corpo um alado violino.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Árvore da vida

São escuros os teus dias. De dia. São transparentes de negrume.
De dia. Uma folha sustentada pelo ardor do teu respirar. Atroz. Lamento, mas é atroz o teu respirar. Como uma leve máscara de amor e som e titubeantes violinos que se despem em harmoniosa dissidência, como mulheres se desnudaram já na minhas mãos. Frio, o teu arfar.
Que imensidão de dia, negro dia. Que altivo, este meu sonho de acordar e não ser mais uma hora de um dia teu, dos teus! Sobe-te o dia pelo sangue e pela segurança da palavra que nele se encerra, que nele segura as lágrimas feitas de ave. É a palavra que se esconde na sombra da dor da minha mão. O teu dia é um gesto na memória dos livros que li e amei. Nos livros de pernas cruzadas e de cigarros extintos com um olhar breve e tímido. Na palavra fria do teu dia.

O teu dia é uma noite. É suponhamos um título. Um fogo fátuo de dia. Um lusco fusco. É uma noite.

Morres de dia, enquanto os povos se revestem de penumbra, febris. Enquanto os olhos dos anjos se incendeiam e o sol se enterra nas dunas. No firmamento do dia, vais desesperadamente vagueando pela cor escura do teu dia. Dias de infortúnio que abraças estranhamente, em direcção a lado nenhum, à cegueira. De dia. Estás doente, bem sei. Nota-se pelo teu respirar, pelo teu odor a poeira. Deixas um rasto a desilusão sobre o papel, uma boca escancarada de estilhaços. Ainda tentas esgravatar com o pulmão, mas talvez fosse melhor sair desse registo, desse teu dia.

Tens nesses dias cidades contaminadas de negro, de pensamento. A criança existe ainda em ti, mas o eco ressoa já longe, sem ritmo, digamos. Sem a excentricidade de um infante, com os contornos da sua cabeça. Pára um pouco, dissemina o teu tempo por todos os teus alados músculos que te suportam.

Olho agora para o teu regaço de mudez, nu. Como foste minha e bela e simplesmente amor. E o confinamento de planos que estavam fora de nós, passaram a ser nós e eles. E o teu rosto à janela, cintilando a chuva cansativa onde o cio nos foi ensinado. Onde a tua boca era um halo doloroso e eu silêncio. Tinhas um canto na tua forma. Como um violino despido. Despido. Foi aí que arrisquei a razão. Por ti.

O meu dia há-de chegar. Eu contemplo-o, ao longe. É do fundo do mar, o meu dia que há-de chegar. Passo a velhice pelos cabelos, a mão pela memória de ti. Lembro a gota fecunda a que chamei poema. A que chamei vida. A que chamo saudade. O teu corpo é agora ausência, é o dia, escuro.

Que nome é o teu, se não sou eu a chamá-lo? Se não estou já aí contigo, para respirar a tua boca e sentir o teu gélido corpo? Um dia, chama por mim. Se desejares muito, chama por mim.
Um dia. Se pensares em mim, ou desejares-me ainda, talvez o último carvão incendeie as nossas heranças e nos ilumine mais um dia. De que me serve morrer inocente se o corpo que me sepultou a memória é o teu? São tuas as raízes que me cercam. E o teu nome é a ausência dele, pois é a palavra que vai queimando a minha escrita nocturna. O teu nome.

Os teus dias são negros, mas quando as mãos encontrarem as mãos e os olhos cegarem os outros, talvez aí a noite se deixe iluminar pelos dias passados, e a estória recomece numa outra neblina perfumada, onde o ar morno de ti estremece os corpos, que somos, para sempre, no fim do teu dia.

segunda-feira, março 09, 2009

Sendo tempo

Somos de muito longe e temos de voltar.
Um dia.
Morremos languidamente, desesperadamente e com um agreste cheiro a fogo. Quem sabe numa praia mais a sul, onde os dedos escorrem sonhos primitivos e as crianças.
Somos verdade e talvez eu apenas deseje mais um outono, com aquelas golas altas e sorrisos gelados, onde as ambições eram um poema por escrever.

Somos a brancura das mãos que demoram. A terra úmida, mastigada pelos olhares de gerações aguerridas, que são só palavras. E bocas. Chove lá fora.
Na terra mastigada e úmida, chove-lhe dentro. Está parada a ser chovida. Deixa-se penetrar, porque é uma palavra.

Somos a servidão de se ser primitivo. Sou Homem, todos os homens, nos teus braços loucamente abertos que me parecem raízes, esses braços. Esses teus pensamentos e olhos cansados que de tão imensos me engolem nesta pequena morte. Aqui.
Aqui estou mais morto. Mais aqui do que noutro lado qualquer. Porque é aqui a frase em que ingressaram os teus beijos secos e é aqui que nenhuma chuva ousa molhar a terra seca. Já morta.

Sou um nome. Habito o local nunca visto, contra este mesmo céu que te esmaga a fronte. Reparto os dias pelos nós dos dedos e separo o trigo para os corações tardios que transbordam de saudade e de nós. Somos a promessa vaga de rio, o rumor de cidade com tantas cousas e faz-se tarde. É tarde para envelhecer à tua porta. A tarde morre pelos dias fora e o canto do vento estende-se um pouco mais. É tarde agora. Ninguém morrera tanto como eu, tu bem sabes, mas sobre o meu rosto que cresce na horizontal, muitas águas se desfizeram e eu apenas te estendi a minha infância para te dizer: tu serás cada vez mais aquilo que tu és - entre o cheiro da maresia e a luz reflectida na ponte, ao longe. Morro literalmente no pensamento.

Todos os gestos. Sou todos os teus gestos e os teus ritmos. Vivo neles e respiro-os e sinto-os em mim e são-me verticalmente fundidos. Eles. Na linha dos meus dias, a minha face toda é um compromisso grande demais para dois olhos, e o meu íntimo mar, o meu amoroso coração, está gasto. É um diálogo recolhido, em que cada palavra aceite é apenas uma palavra e nela eu todo me sinto dito. Porque somos seres olhados. E estamos expostos, porque as pálpebras desceram e não mais te defendem.

Com a tua partida a minha estória começa. É essa a tua última dimensão conhecida. Levarei mais longe a tua vida e a terra será novamente úmida. Quando chegar o Outono, entenderás que a única estação é apenas aquela por onde subi até à tua última lágrima de saudade.

sábado, junho 14, 2008

Nenhum mar é eterno

O último homem cobre-se de dor melancólica, na noite volante que se assemelha ao ouro incendiado. É agora o coração póstumo, errando no fraco corpo. Apenas desacelerando o próprio batimento enquanto na rua os sons são nómadas de um abandono pueril. Tem na boca um cuspo destruído, um mar imóvel repleto de noites sábias e espaços trémulos, como quando as aves se despediam à janela. Estavam...surpresas na paisagem de ti dentro de ti.
Aquela cor de angústia, ácida e lenta que trazia nas mãos, e cegava a todos os que agora recorda. Não sabia ainda descodificar os seus erros, e a cidade flutuava à sua volta. Os passos flutuavam, o sangue tremia no tempo, a solidão do sangue no espaço ocupado pelo tempo, e a memória. Crescem sombras à sua porta como viveiros de ostras nos antípodas, onde no esquecimento do rosto deambulam nomes e cidades e rios e medos.
Só quem lhe sentiu o âmago pode agora devassar a inocência de mil poemas. Um poema vivo, crescente, resignado no estremecer da luz e no espelho do hábito, inunda as viagens que faremos um dia. E que um dia ainda seremos.

terça-feira, maio 20, 2008

Ao que parte

Traça-se uma linha viva tão imediata e lenta como um início de universo. Cheia de substância e nomes enlaçados, tranquilos tesouros, anuências azuis de um flexível respeito. Anda-se sobre a imprecisa linha, que de ver uns morrem e na imobilidade do tempo, outros nascem.
Nada fora dito antes da linha, porquanto o esquecimento devora o que não é linha e cresce nela uma nova consagração, um alvor na matriz do devir.
É assim que somos livres quando nas ruínas de uma cidade esquecida,
o passado, o presente, o futuro,
são uma linha por traçar.

segunda-feira, maio 12, 2008

Tempo branco de firmamento

O medo viaja de rosto em rosto, e o meu vazio é um infinito ódio, pena e silêncio. Silêncio quebrador e juízo perene.
Entrega-te, coração. Piedoso coração de braços erguidos e face voraz. Tens agora dez eternidades de sombras e a tua orla é cada vez maior entre a floresta. Estende-te e dá forma à harmonia sem cuidar do olhar alheio.
Há ainda alguém que sente. Há ainda alguém que lembra.
Um encontro é sempre um universo, e na palavra arde ainda uma trémula audácia.

domingo, maio 11, 2008

Tentações

Disfarçado de medeia, o vento sibilava para onde mais lhe convinha. Ele distribui o êxtase com fulgor. Trá-lo nas mãos de dor, e nas asas um caixão. Nele mergulhamos e a sua voz é o adormecimento implacável das batalhas medievais. O sopro.

Durmo na Atlântida, onde Ulisses sulcava ondas como um vicio. Daqui vejo um coração em pleno céu, sob a forma de tumor. Abraso-me subelevado pelo arrebatamento extremado desta visão. Sinto uma pulsação ritmada e semi-musical na minha canalização sanguínea. Estes extâses celestiais são febris e enchem-me de volúpia. O poeta.

Penso e chamo. Em murmurio, mas ainda o chamo, concretamente. Quando se colhe um olhar ou uma rosa, tornam-se frias as minhas mãos. Não há vida nas carnes emprestadas. As mãos não são minhas, penso. Porque as tento devolver à vida, e ainda assim, elas não me obedecem. Estas mãos serão de outrem. De alguém, mas não minhas. Foram talvez anexadas, enxertadas, coladas ou tornadas minhas pela força de alguns anos, de algum hábito a vê-las aqui, perto de mim. Conheço-as, mas são demasiados dedos, é bizarro, um ultraje, leves e inertes. Estas mãos que são de algum louco, obscuras mãos, decepadas mãos. Poeira de primavera. Alguém as deixou esquecidas sobre um corpo de mulher, e eu resgatei-as. O sonho.

A minha voz é um gerundio contínuo. Misto de labor mudo e suor. Se alguém a quiser é só pedir, mas não prometo. Já eu a tentei em vão arrancar pela raíz, mas o grito é difuso e responde calado às solicitações que vêm de fora. Foge e retorna, vai e vem isolado, deixa-me cego sem fala, sorri e assusta-se, mas não prometo. É a leve doçura do silêncio. E ainda assim, trago-a comigo. O som.

segunda-feira, março 31, 2008

Monumento de carne

E nisto o dia fecha-se em abóbada definitiva, enquanto os sons morrem sufocados em colunas críticas de fumo. O rio só traz poesia e veneno numa mistura química lânguida e demorada sobre o resto. O resto da vida que se escreve de olhos cobertos de nuvem. Aqui e ali vou-me inevitavelmente completando com um jardim, um caminho, um nome. Só. Sentido.
Escolho o regresso, não penso o tempo. A direcção que convém, e todos os gestos que me tornam assim, história. Em faces orientadas por sorrisos, crianças iluminam os sonhos com os seus gritos e eu amo a minha infância ocupada agora pelo inominável e informe desespero. Vejo-a na areia fina e num baloiço irrequieto. Vejo-a no céu e folheio retratos. As carnes tenras e as unhas negras e fortes, que deveriam durar tanto quanto duram três eternidades. E a aventura reincarna na demência porquanto o corpo se perde em escamas e algas. Seremos aquele cujo nome se dobra em esquecimento, a chafurdar no lodo recolhido. Uma lua destas, e seremos as traseiras do belo, o eterno clandestino, a ruína escrita em pedra.
Só aí os outros. As suas caras voltam-se em horror. O pestilento odor da nossa passagem, arrastando-se pelas ruas. A roupa cobre-nos as muitas primaveras e os choupos que já tombaram durante excertos da nossa brevidade. Um adágio de Outono. E é uma passadeira branca estendida como uma escadaria rolante. Edifica-se. Somos um zero fleumático, e eu sinto agora na fronte um calor azul, um brilhar incandescente, o zum zum da paragem cardíaca. Sim, o coração quando pára faz um som mudo e tudo o que desconhecemos se torna som e somos então verdade. A morte continua fora, mas o reduto é agora uma ilha, e a nossa pobreza é tão grande, tão imensa, que a humildade de se ser Homem fez de ti um verbo. E de mim peregrino.

sábado, março 29, 2008

As duas, os dois.

Ontem voltei a perder-me na tua dor, meu amor.
Ontem matei-te. Nós, o meu amor. Nesta margem.
Agora amo o teu cadáver, sem ti que estás sobre as minhas asas de perfume negro.
Agora não sabes a nada quando te beijo e tenho medo. Sinto pavor de falar em ti ou tocar o teu esqueleto, enquanto o meu coração sussurra. O terror tornou-se agora numa cegueira fria e agonizante. Quero arrancá-la. Tanto, tanto que não calculas. Para te ver.
Agora nado para longe, contigo, meu amor.
És uma teia e eu tecido de memória. Ao longe, ouço crianças gritar sangue lento pelas tímidas goelas pueris. O aço derrete. O animal poeta ferve. Os trovões desaguam nas minhas veias. E nado contigo para longe. Meu amor.
Somos ainda dois inocentes. As hienas babam-se na parada, mas as fendas por onde nos perscrutam são cada vez mais estreitas. E a luz está deste lado. Somos um romance assassinado, em pedaços desfeitos e belos. Somos um sonho devorado, mas um sonho ainda.
Eu sou a estupefacção em forma de arcanjo. Um cemitério de garras e matéria por acabar.
Na outra margem, o teu corpo sob o sol. Os ossos estalam de vida, e o branco da salina desespera, fugidio.

Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.

Agora morres aqui, nesta margem, na minha ausência. E quando eu morrer, as margens serão mentira e o pó um mero espelho.

domingo, março 23, 2008

Um pouco mais a sul

O investigador é o seu próprio narrador. Impõe-se-nos pelo poder oco das suas concepções, hipotéticas divagações, atalhos semeados nos segredos físicos pungentes que vai martelando com cor de mármore no seu quotidiano. É belo contemplar a sua ruína, o desmoronamento dos seus pilares jónicos, das suas incontestáveis aflições. Quem pode compreender os motivos que os prendem a uma causa, um remorso, um milagre?

Eu te saúdo, velho amigo desconhecido. Queres-me dizer que tens algo? Algo ainda sem baptismo? Apesar da tua elegância e despreocupada aparência, sentes-se usado, não é? Vamos dar nome ao algo que tens contigo. Vamos ser particularmente terríveis e líricos nesse belo empreendimento.
E a tua superioridade, como te dás com ela? Agora que não se desfaz nem resplandesce ao teu passar, fica apenas um perfume das tuas aspirações a belo, correcto? Eu sei, meu caro. Eu próprio já fui tu, sendo eu. Também eu já senti esse irónico contraste, a mais burlesca antítese que jamais se viu na criação: não me amando, detesto-me. E no entanto, volto ainda a mim, este frágil invólucro de alma.

Pergunto-te: desejas ser meu irmão? Meu semelhante, talvez? Dessa forma deixarias de sentir o paladar amargo da beleza, a trémula mão do carrasco com o seu justo machado sobre o teu ser. Eu sou o símbolo da identidade, uma vaga mais furiosa que alimenta as areias de sal. Trago oculto no meu regaço milhares de futuros por erguer. Tenho todos os temperamentos e conformações desde os primórdios argilosos da esfera geométrica.
Sentes que nada te é impossível? Ao início, parecia uma anomalia, mas agora as raízes estão ocupadas contigo, trabalham com o teu corpo como um instrumento, um doce adágio que desdém do seu semelhante, no seu covil. Do teu olhar saem cristais em chamas e oceanos lugubres com profundidades vertiginosas. Sentes-te tão imenso, que para te contemplar, um só horizonte não é suficiente. Eu te ensinarei a desdenhar os teus ossos. É forçoso que sintas a tua imperfeição, mesmo no calor do teu leito, nas tuas resolutas tentativas de salvar todas as espécies de animais que voam, que andam, que gemem, que choram, que sentem tudo o que tu não te imaginas capaz. Ensinar-te-ei a destilar sentimentos e acabarás possivelmente a comer o teu próprio coração, com essas lividas garras, num exercício que mais tarde confirmaremos como redundante mas que abrirá precedente a toda uma nova dimensão no perpétuo caminho da tua superioridade. A tua grandeza não terá limites, infinito em imagem, como o amor de um recém-nascido, pois ainda não conhece o espectáculo das suas futuras misérias.

Serás mais belo que o teu reflexo, porque voltarás aos braços ardentes da providência. E na tua hora extrema, em que os olhos já secos retardam o último sal, chamarás por mim e eu estenderei a minha glória sobre o sofrimento que fez de ti prisão. Nesse instante, adormeceremos na falésia.

O que eu digo é uma massa informe

"A minha poesia não consistirá senão em atacar por todos os meios o animal feroz que é o homem, e o Criador, que nunca deveria ter engendrado semelhante escória. Os livros hão-de amontoar-se uns sobre os outros até ao fim da minha vida, e no entando, só encontrarão neles esta ideia, sempre presente à minha consciência."

Ducasse, Isidore
Yndi HaldaWe Flood Empty Lakes (A Lily r

domingo, março 16, 2008

Estou sujo, roído de piolhos.

"A poção mais lenitiva que te aconselho é a bacia cheia de um pus blenorrágico com caroços, no qual previamente se tenha dissolvido um quisto piloso do ovário, um cancro folicular, um perpúcio inflamado arregaçado da glande por uma parafimose, três lesmas vermelhas. Se seguires a minha receita, a minha poesia há-de receber-te de braços abertos, como um piolho ressequido recebe com os seus beijos a raiz de um cabelo"

De Mal, de dentro do tempo, de dor, dos inesquecíveis e fugazes poemactos de Adolfo.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

homem de perfil discreto

Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me um homem que seja bom!...Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de espanto; morre-se por menos.

sábado, fevereiro 09, 2008

De Maldoror

"A sua energia contínua intocada e com ela o prazer primitivo de derrubar o pai, o mestre, Deus, a autoridade, o prazer físico de transgredir o interdito, de soltar os desejos reprovados, o prazer intelectual de contemplar a escrita, de lhe sentir os avanços, os recuos, os desvios, o humor, o prazer alucinógeno de se deixar levar pelas suas dimensões oníricas, pelos espaços do sonho e da fantasmagoria."

De esticar o ser e alcançar a fé. O sonho.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Travessia em tempos maduros

Inclinado sobre o volante, esperei por um gesto teu. Um pálido toque, um acorde.
Na volta do farol, o vento toldou-me a vontade. Uma vontade irrepetível até este inútil momento. Roí o esmalte e engoli em seco, pois o relógio não parou na noite. A noite em que os anjos se deleitaram com o tremor dos nossos corações. O peso dos deuses sobre os corpos fracos, imberbes.
Foi aí que me calaste sem subtileza. Paraste o fluir do sangue, o escorrer do negro sangue.
Deixa-me ouvir, com o teu sorriso imperativo e metálico. Eu deixo.

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segunda-feira, dezembro 24, 2007

Lunar

E chegou o amor, virado para dentro.
Traz consigo mãos frias e coisas que dizemos ao de leve.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Hoje é o tal dia, pelo qual sempre sonhaste,
Sabes que ele chegaria, nunca desesperaste.
E a surdez toma-te o corpo, as asas
Elevam o teu esplendor.
É o amor, é o amor.
E eis que se despe no teu turno, no teu solitário caminho.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
A veia do sentido, do nosso sentido.

Então parei pra dizer um sofisma, um abrigo,
Trago comigo este ardor, este amigo.
Então pensei o tempo a gelar,
O teu olhar sobre o longo mar.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A casa segura

A destreza dos dedos, a queimar folhas. Vislumbram discretamente tudo o que é húmido e sagaz.
A mulher pega no tempo e atira-o ao ar, brincando. É um jogo, uma mera posse que se esgota e se mastiga em si mesma.

Sigur RósVon

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Deep Purple

"Não é para mim", disseste.
Vou-te inteirar deste modo. Quero apenas que sintas a tonalidade das palavras. A sua sabedoria. O texto és tu, sem o teu sentido. Apenas força e ira, dentro dos vasos ramificantes da criação do teu ser. É a garra, a opulência das palavras e um querer desmedido. As estações graves e infinitamente inalteradas de ti. Em ti. É o titubeante Grrrrrr que soltas ao desespero do vento. Mais um som e emudeces os meses que respiram por ti . É o bafio rápido da desordem criada em torno dos demais. Somos todos demais. Desconexos, infatigáveis, inacabados seres. Mais e mais vão brotando do tempo.
És o texto escrito quotidianamente com a soltura da memória presa. Pára o sangue de correr, inocente sangue parado. És uma fonte solar, um ermo de ensinamentos perpetrados pelo tic-tac das obrigatoriedades escusas.

O contexto. Serve-lo morno, com a tua cabeça musical. O pedaço de ti com o teu sentido dentro. O humanamente inaudivel, sensorial, que espalhas em gestos e ensinas ao sol. No céu podes tecer nuvens violetas com notas musicais. Toda a tua alegria, bordada a silêncios velozes. És um lugar de esplendor virgem cujo nome estremece nos dedos e se lê na tua pele morena.
Tenho presente a imagem de ti. Fitavas o mar ansiosamente. Destruia-lo com o teu amor, por cima dum desespero fulminante. Ele esperava por ti, em todo o teu esplendor. Absorto contigo, apenas teu. És uma paixão bárbara, uma leve doçura de campo melancólico. Mistura de senhora e criança em mulher feita deusa. És o enigma do verão, aquele cujo amor te prende um fechar de olhos mais enebriado.
Nasces dos pés, ou das folhas, és uma canção inocente e anunciada. Temo-te. Os demais temem-te os passos, querem beber de ti, das tuas lágrimas, da tua suavidade. Estrangulas a beleza com a eternidade de ti. Na teu corpo exaltado.
E o meu pensamento quente está agora contigo.


Música de fundo -
Max Richter - Bach Shadow

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Movimento em código

A imagem engolida
pelo pesar. Desfeita,
abruptamente,
pelos olhos das
crianças. Inertes e
estonteantes, em sua
aglutinação de força. A
imagem era imagem.

Ouvi dizer um tempo assim,
mais concreto e perene que
o aço moldado pelas falanges dos
antepassados. Mais impossível que
as câmpanulas sobre os trevos do
que há-de vir. Ver o meu melhor, o
meu pior. Angústia do interior
do ser. Medo e ódio. Suspiros de
hetero-destruição, de amor apagado
e talvez presente. Ou então
apenas coisas errantes, incertas,
desesperadamente graves.


Música de fundo - Sigur Rós - Samskeyti

Morro noutro nome distante

Talvez hoje me deva despedir de ti. Tenho agora vinte e sete bocas urdidas em instantes eternos.

Talvez comece hoje a morrer na tua mão direita, em silêncio. E então iniciar-se-á uma quieta troca de pensamentos antigos, uma loucura quente e doce, como o sabor dum beijo imaturo.
Talvez ainda hoje o meu sangue não seja apenas sangue. Alguém mo poderá vir tomar nas mãos negras de incúria. Assim como se tomam coisas doentes ou animais moribundos. Eram assim os sorrisos rápidos e as lágrimas tolhidas por ti.

Talvez os degraus levantados onde se põem as palavras amargas, sejam corpos desvairados e a cinza que o passado leva. Agora que a confusão espalha sobre os passeios este frio hediondo, o tempo é cada vez menos sôfrego. Menos ansioso, digamos.

As luzes apagaram-se. Todas as estrelas me morrem ao largo. O som é discreto. O som é cego. É preciso desligar o céu, como se alguém o soubesse algum dia fazer.

Talvez te esteja a morrer na boca, na língua eterna e nua. Enquanto me lembro, vou-me apagando com as luzes. Sorrio e descubro as grandes razões da insanidade do amor. É preciso tentar, ter alma e sentir.

Talvez assim me desfaça mais gentilmente. Ás vezes levantava uma perna e ficava ali, a arder. Era simultaneamente tenebroso e catalítico. Eu julgo que terei amado todos os pedaços. Se efectivamente deixei algum de lado, não foi por querer. Sempre pensei que o meu lado era aquele que levitava com opulência. E já tinha então as palavras de um homem. Todas as que se têm para ondular as águas todas do mar completo.

Talvez a vida fosse madrasta. Dizem que algumas são boas, quem sabe!

Talvez esteja hoje a chegar o meu tempo. Chega sempre o nosso tempo quando não estamos à espera de ser chamados, não é? Afiançamos isso mesmo. Mas chega sempre um dia em que o coração ressoa e as dores não são mais do que meras desculpas obscuras.

Agora já nem durmo. Estou iluminado por dentro e por fora, e enquanto o dia vai, canto o meu sangue profundo. Deixo os arbustos do corpo ao desdém da imperial insensatez. Sou um monstro de confusão e apenas renovo as palavras. As próprias que tu inventaste para mim. Eu olho-as, descubro-as novamente a cada origem. E vejo palavras dentro das palavras, sobre um sopro de esquecimento. Aquecem-me, trazem conforto. Sou uma onda dentro delas.

Talvez seja agora um bom momento. Tenho os ossos quentes e firmes. Apesar da carne batida, tenho os ossos firmes. Deambulo à espera. Com a cara, procuro a frescura dum girassol, dum chilrear de cotovia. Há uma mudez aterradora no espaço em volta. Só eu provoco este crescimento de som, na vagareza da carne. Falo já tão devagar, que o pensamento absorve o som, enterra-o no anterior pensamento. Sou apenas uma coisa enorme. Demasiado improvável. Sou agora todos os mortos, todos os que me amam, entre rios do mundo, entre coisas imperceptíveis na noite eterna.

Rio porque sou uma criança. Uma pequena candeia de amor e de sonho. Sou apenas um poema.
Talvez agora seja um poema.

Música de fundo – Arvo Part – Spiegel im Spiegel

domingo, dezembro 16, 2007

Apenas

Apenas a sombra do etéreo revela o que já um dia foste. Tudo. Apenas te observo daqui, deslumbrado, entre as descuidadas dobras de pedra e desmemoriadas águas do nosso infinito mar. Aquele junto ao qual demos as mãos, com as calças dobradas e o espaço em presença.
Revejo agora o alto das águas verdes de musgo. O caminho. No fundo, os corpos nus e desmembrados da loucura. Apenas a boca vibrante desse abismo onde te encontras agora deitada e é exaltação.
Apenas sinto o deserto com o seu vento fantasioso, sorrindo
aos corações das crianças. Elas, que seriam tanto de nós. Com aqueles caracóis dolorosos e os braços em sangue de tão finos.
Apenas desapareceste. É um pouco de ti, e misturas-te na lua que trago gravada no passado. É um erro pensar, desejar, sentir. A cabeça montada em rosas, que bebem do jeito de ser de uma delicadeza misteriosa, as árvores, a laranjeira junto à janela, a luz que entra permanentemente sobre os finos lençois. A fixa vontade extenuada. E tu outra vez com uma redundante negação.
É tempo. Apenas tempo de morrer no interior do vinho, cândido e ardente. Deixar em nós um fulgor de ausência e súbita
sombra de coral. E agora é só uma vida enterrada. Apenas

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Pergunta --> Resposta

Ela disse: O que é que sonhaste esta noite?

Ele disse: Sonhei contigo. Várias vezes, infinitas vezes, infinitos sonhos que se prolongam noite após sono, sono após noite. E és apenas uma ardente confusão, uma criança no vento alado após a cegueira acesa. Sonhei que éramos um só. Outra vez, como tantas vezes. E nunca mais isso será tão real como a existência do ruído,
da loucura do ruído, por trás da loucura do ruído, como os teus olhos imensos a olharem-me a alma. A perseguirem-me os sentidos.
Não durmo, apenas sonho.

Sonhei que era apenas um mau sonho. E vi-te já demasiadas vezes, desde. Seremos eternos, análogos, existências de ambos. Amados, ardentes amantes. Sonharemos o tempo, aquele miserável tempo das coisas pueris. Sonharemos alto as cousas da loucura, na paisagem que és tu e sou eu, sempre eu e tu.

Sonhei, não senti. Já não sei o que é sentir, deixei de o saber. Deixei de sentir o saber das coisas, a sensação de verdade das coisas. Aquelas formas incrustradas na inspiração da cabeça. E enquanto a vida se vai extinguindo num supremo amadurecimento, a boca respirando o sangue, as mãos transparentes a ouvir a melodiosa dor da idade. Enquanto isso, encontro aquele repouso frio e intenso
que conheço. Enquanto sonho, quem me dera ser destruído por esse sonho. Desejaria eu ser destruído por um lento milagre interior. Uma cor.

A nossa. Sonhei com ela. A primeira pergunta. O primeiro adormecer. Aquele calor na tua boca rodeada de sonho e timidez. Sonhei com faróis. Um vai e vem de ternura a escorrer pelos chãos desta sombra.

Eu sei. Quero dizer, eu amo. Quero dizer, sonhei.
Sonhei contigo.
Sonhei o negrume do nada. O abstrato das minhas mãos encostadas ao alto, lá bem no alto. A desejar a tua alma pura. Como quem pede por uma manhã de junho. Sem suor e sem calafrios. A paz no interior do sonho, sem agruras e sem pântanos.
Eu era a baixa lua com quem os rios sonhavam. Era todas as imperfeições perfeitas.
E um dia morri.
Sonhei que morri. Sonhei que estava vivo e morri. Sonhei que estava a sonhar acordado.
Um sonho, foi apenas um sonho. Tomo nas mãos pequenas o que aquece a carne, o que ilumina a cabeça. Sou a voz universal de uma boca apenas.

Sonhei contigo. Que sonho.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Fúria

No entanto, foi atacado por uma melancolia. Aquela acostumada tristeza clandestina. Para ele, algo estava desordenado no lugar comum que se tornara a sua rotineira sensação de existir. Desde que a juventude tinha desistido dele, não sabia como lidar com a simultanea tentação de odiar todo o movimento imberbe e reconciliar-se com a realidade crescentemente postiça - quem não teme a verdade do desprezo? - dos agitados cidadãos. Pareciam-lhe saídos de frascos de marmelada gelatinosa. Uma alternativa lânguida às gentes do seu tempo. A Ela. Todas as questões que lhe fugiam ao outrora poderoso alcançe atormentavam-no. A falta dele, porventura a sua maior transfiguração enquanto homem, tornara-o mesquinho. Durante década e meia, conseguira acinzentar as páginas da sua vida com vociferantes reacções e alusões à impropriedade dos locais. Dos cenários, dos sentimentos, dos comentários, dos amores. Apesar da distância temporal, pedia para ele mesmo desculpa à mulher. Talvez por vários motivos. Talvez por nada. Então, recolhera-se dentro de si mesmo. Em posição fetal, sobre a cama, via agora o bafo quente espalhar-se na cal gasta da parede, formando imagens imperceptíveis. O tempo parara, com o olhar turvo pela memória. E assim se perdeu do corpo.

terça-feira, outubro 03, 2006

Mar Adentro


























Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo
.

Un beso enciende la vida

con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

segunda-feira, setembro 11, 2006

A outra realidade

Este link destina-se apenas aos que não se conformam. Não é a cura, meus caros. É apenas para vos deixar ainda mais inconformados com a miséria em que vivemos.

http://truth.provostdesigns.com/

sexta-feira, junho 09, 2006

Oh reminiscências do passado...voltem!

E o destino repete-se. Os Vampiros continuam a viver como papões, nesta mísera e inaudível revolta que é Portugal.

O céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada


quarta-feira, maio 10, 2006

Ser maior

Ordenas gentil: "poderei ser teu dono?"
Cinco da matina, passo o cabelo pela brisa,
Refresco o pensamento no doce hálito, e pergunto quem virá.

Na semântica do tempo, um esvair de sentidos,
Procuram folgas tardias, dentro de um bocejo torpe.
Era assim a vida, mas fê-la quem omite,
Que o passado lá atrás, foi estória por contar.

Quando o ser é maior, o ter nada importa,
É nobre e sombrio.
Enchendo a escuridão de sombras. Procuro a tua.

Imperas docemente, que desordem é esta?
Sem mágoa nem ira, nem pó antes do pó.
Cravada no papel, sinto, procuro e resisto,
Espaços desfocados à espera de ti. E de mim. E de mim.

E afinal, quem eras tu senão eu?
Aventura ávida e languida,
Olhares que se tocam, bocas sondando o apetecível,
Odores perdidos, relembrados.

Quando o ser é maior, o ter nada importa,
É nobre e sombrio.
Enchendo a escuridão de sombras. Procuro a tua.

quinta-feira, março 02, 2006

Mundo ao contrário

Cada dia que por mim passa, mais ignorante me sinto.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

O destruidor de sonhos...

...é tão somente aquele gajo que, inadvertidamente ou não, te arranca os dogmas à falsa fé da cabeça, quando eles já estavam bem instalados e a beber um Vodka à frente da tv.
Agora eu pergunto: será que, de cada vez que concebemos um ideal de herói, aparece alguém e nos repreende a alma? Não só é humilhante, como devastador.
Ao menos do Cebolinha, posso gostar? Ou vão-me dizer que também tem algum processo em curso no Tribunal da Relação?
Shame on me.

Frases repetidas ao expoente máximo

"Tá tudo bem!".

Nem tudo está bem, apesar de acalmar (aquecer, talvez) cada vez que se diz: "Tá tudo bem!"

E então o inenarrável: "De certeza???"

Isto sim, é paixão!

Tempo

Tempo. É sempre tempo de efervescer, de criar. Pegar ou largar, tentar. É sempre aquele tempo, todo o momento. É ainda tempo, para o esquecimento.
Quando a recusa é fugaz, arrisca. A mão dormente, vacila, e aí, é ainda tempo.
E revolta por dentro, quem não sente o tormento, e desespera noutro tempo. Ele, sibilado ao sabor dele mesmo. T-E-M-P-O.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O Holocausto nunca existiu...


...afirmam os diplomatas iranianos.

Post lamechas

Amas, dormes, sonhas, gritas, sorris, embalas, cuidas, ralhas, acarinhas, choras, gritas, pensas, ris, conversas, ralhas, escutas, perguntas, sorris, embalas, sentes, choras, emocionas-te, foges, pensas, ficas, ralhas, sorris, toleras, dormes, sonhas, amas.


Obrigado, M.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Mulher


Cheia de metáforaS loucas e fogosas.
Ela, única.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O encontro

Este é o vazio inominável. A fusão de ar e pó. O renascer de alma, depois do encontro.

domingo, fevereiro 12, 2006

Feito de pedra e dor



Se finalmente entrarmos no rumo da verdade, que cousas dirá quem não se engana com a mentira?

A própria epiderme lascada, certeza dúbia de encontros nefastos, os nossos. Já éramos quase sãos e, no entanto, ainda nos perguntava-mos se doía. "Dói-te?"..."E a ti?"
No agora intermitente das palavras, sai-me um "agora estou melhor!", meio enfadonho e negligente. Tu, nem metade conseguirás balbuciar, entre risos e dores, medos e humores. Dirás talvez "não te preocupes,parvo.Eu cá me arranjo!".

E é a última vez que te vejo, sem saber. E é o último beijo que me dás, indiferente. E vou por aquela rua, sozinho, outra vez.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

MK


O amor está a trabalhar. Ele é infatigável.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Só indiferença

Para que serve tanta coisa? Qual o interesse disto e daquilo? Tudo se esvai, no corpo torpe. Tudo soa a nada, é nada. Quase tudo é quase nada............................................................................
............................................................................., e depois tenta-se buscar o entendimento de tanta coisa, disto e daquilo. E nada.
E não somos nós TÃO estupidamente injustos?

domingo, dezembro 25, 2005

O fumo


Respira, pequeno, respira. Estas malditas vísceras que não me largam o paladar. Há aqui. Há ali.
Roem o que integralmente fazemos por pensar. Que não é deste mundo. Não é deste mundo, tudo o que acabamos por pensar. É,

onírico e falso. Controverso o verso e o reverso. O fumo do silêncio e da penumbra, da pena e do medo. Com aquele valoroso e bolorento sabor a mel. Fel dos meus sentidos. Dos meus, também teus. Corre, pequeno, corre. Sente o choro estendido no entendimento, procurando o que foi salvo, sabendo que não existe o que tanto foi. Foi pra casa. A regra de todos os mártires vem lá, no núcleo dos amores. Bem perene e presente. Vou clamar por ela, como se anseia pelo,

elixir. Sem garrafa e modelo. Aquele que todos querem, aquele que todos procuram. Tic Tac, lá vem ele, rangendo os dentes. Tac Tic, sorri e ri. Que...brilhante, o brilho. Já não é nem se sente, mas parece ainda o mesmo que tantas vezes se prostrava entre os nossos corpos. Entre o suor e a sede. Se te fores, ao menos olha para trás. Ao menos,

pelo menos. Até aquele dia em que eu sobrevivi. Quando um eram mais, e a tabuada da vida fazia o sentido do odor que paira nas raízes da terra. Ainda assim te digo, meu querido.
Lambe as feridas, pequeno, lambe-as. Afaga-as com o teu bafo e sente a reviravolta do sangue. E sente a carne que não apodrece, dando lugar à eternidade e,

ao belo.

terça-feira, novembro 29, 2005

D e uma das suas vozes

As ambiências mundanas assentam-nos no palato como urtigas, quando comparadas (será possível?) com o riff de uma baqueta numa viola baixo, o tilintar de 4 xilofones, ou mais ainda de uma invisível e invisual voz. De um deus. Não um qualquer deus pagão, mas a voz, e apenas ela, nos rasga da convencionalidade de milhares de anos. Com um peso indescritível. É um sopro, mais um gemido, e no fim, o que importa ter apenas um olho?, quando a omnipresença vocal nos assola e abraça num gesto terno e alienígena?
Para os amigos, apenas Jónsi.

sábado, outubro 08, 2005

Uma dor imensa

Foi como olhar, foi como arder,
Para mim nem foi viver. Foi mudar o mundo sem pensar,
Mas o tempo até passou, e és o que ele me ensinou,
Uma dor imensa pra lembrar que não há fim.

Diz sem querer poupar o meu corpo, eu já não sei quem te abraçou,
Diz que eu não senti o teu corpo sob o meu,
Quando eu cair, espero ao menos que olhes para trás,
Diz que não te afastas de algo que é também teu.

Não vai haver um novo amor, tão capaz e tão maior,
Para mim será melhor assim.
Vê como eu quero, eu vou tentar, sem matar o nosso amor,
Sem achar que o mundo é feito para nós...

Porquê?

Estes são os meus piores momentos. Aqueles que eu desejaria nunca terem existido.

quinta-feira, setembro 01, 2005

O Túnel

Permissa: Corrida de carros na Tailândia. Um negócio com mais fluxo monetário do que a prostituição. Corridas ilegais de carros num túnel abandonado e sem luz, com a distância de 3km em linha recta. As apostas são altíssimas. Um contra um. Cada corredor parte de um extremo do túnel, e ao entrar fica completamente no escuro, podendo apenas confiar no seu sentido de orientação. Há um tempo limite a bater, o mesmo que é feito com luz. Quem conseguir chegar ao outro extremo com vida vence. Nunca ninguém venceu. Muitos morrem.

O único que consegue é alguém cego. Alguém que dentro daquele túnel vê. Mais do que qualquer um.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Antes que anoiteça

“Passeio por ruas desmoronando-se

Em delapidados esgotos, por entre prédios de que se foge pois caem-nos em cima.

Por entre toscos rostos que nos medem e condenam, por entre lojas fechadas, mercados fechados, cinemas fechados, jardins fechados, cafés fechados, exibindo às vezes poeirentos cartazes justificativos.

Fechado para obras, fechado para renovação... Que género de renovação?

Quando termina a tal obra, a tal renovação? Quando sequer comecará?

Fechado, fechado, fechado, tudo fechado.

Chego, abro inúmeros cadeados, subo a correr a improvisada escadaria; ali está ela, esperando-me.

Encontro-a, destapo-a e contemplo a sua poeirenta e fria forma, sacudo o pó e acaricio-a.

Com pequenas palmadas limpo-lhe o lombo, a base, os lados.

Sinto-me desesperado, feliz a seu lado, de frente para ela passo as mãos pelo teclado e rapidamente tudo começa: com o ta-tá e o tilintar a música começa, pouco a pouco, agora mais rápida, agora a toda a velocidade.

Paredes, árvores, ruas, catedrais, rostos e praias. Celas, mini-celas, grandes celas, noites estreladas, pés descalços, pinhas, núvens, centenas, milhares, um milhão de papagaios, bancos e uma trepadeira. Tudo acode, tudo vem, tudo se aproxima.

As paredes recuam, o tecto some-se e flutuas naturalmente, flutuas desenraízado, flutuas arrancado, arrastado, elevado, levado, transportado, imortalizado e salvo.

Graças a essa inaudível e constante cadência, por essa música, por aquela ta-ta-tá incessante.”

RA

Esta mulher

Ia já a caminho de casa, quando decidiu parar na farmácia junto à estação de rodoviária. Não a habitual, pra não dar nas vistas, mas aquela perto da antiga casa dos seus pais, que frequentava em petiz. Provavelmente serão outros farmacêuticos, talvez até já nem me reconheçam, pensou. Entra e dirige-se ao balcão, onde aguarda a sua vez. É atendida por um baixote bonacheirão que lhe pergunta entre dentes: diga, por favor? Queria um teste desses de gravidez, tipo Predictor. Predictor era muito caro, mas o simpático homem lá lhe arranja um de semelhante efeito por metade do preço. Esconde-o rapidamente na mala sem fundo, para que ninguém se aperceba. Paga, o que à primeira vista lhe parece exagerado, mas depois de intrincadas cogitações assume que talvez seja até um oráculo bastante em conta. E afinal, saber algo tão importante, não valeria a dispensa de uns trocos?

Anormalmente calma, bailou por entre as cores da calçada, até avistar a porta de madeira opaca. Ao entrar, poisa a mala na companhia das chaves e telemóvel, na escrivaninha de pinho claro, que lhe dera a sogra como prenda de casamento. Acorre à cozinha para matar a sede, e, quem sabe, desatar o nó no estômago. Liga a TV, ignora, desliga. Dirige-se à sala, olhando a mala de soslaio. Senta-se no sofá, depois de descalçar os sapatos que lhe vincam a carne. Surge um primeiro pensamento. E o segundo. E não aguenta mais, não quer aguentar mais. Afinal, ele está já ali na mala, e agora que lhe veio a vontade de fazer chichi até calha bem.

Despe as cuecas, e enquanto urina sobre o teste, tenta imaginar o peso de ser mãe. Só a palavra sugere um misto de temor e responsabilidade. Naqueles breves instantes, consegue apenas imaginar as horríveis doenças que suplica que não atinjam um possível feto, mas pensa que sim. Naquele momento, o seu rebento padecerá de todos os males do mundo conjugados em dor e traduzidos num sofrimento atroz. Tudo numa só vida. Numa só existência. Agora aguarda os quatro minutos que vêm a negrito nas instruções. Pensa, vou fazer um chá enquanto aguardo. Aquece demais a chávena e queima os lábios. Vai à varanda, não se vê vivalma. É segunda de manhã, e quase todos labutam. Ela é uma das excepções. Pediu ao patrão para sair mais cedo, pois sentia-se mal, enjoada. Prenúncio? Já saberá. Volta à casa de banho e encosta-se à porta. Se for cor-de-rosa...tudo mudará. Tudo. Um filho, o séquito, um renascer na relação. Carne do meu sangue, da minha alma. É cor de rosa.

Tinha planeado mil e uma formas de contar ao marido. Encenações, tons de voz, surpresas. Mas disse-lhe às escuras, quando se abraçaram depois de fazer amor. Disse-lhe, estou grávida. E ele beijou-a.

Para já era segredo de ambos. Pelo menos para já. Mais tarde outros se aperceberam, ora pela frequência de indisposições, ora pelo incessante sorriso estampado. Ia ser mãe.

Por entre consultas, lazer e trabalho, ordem e bagunça, gritos e solidão, o tempo foi passando. Passando.

Ao quarto mês, a consulta da praxe. Tira o avental, toma um banho e prepara-se. Enfia a barriga atrás do volante e segue com o rádio em off. Concentra-se.

Já no consultório, pousa a carteira e senta-se. Por entre apertos de mão e resumos, diz-lhe o médico: dispa-se e deite-se na maca. Agora abra as pernas. Os ginecologistas têm aquele velho truque. Quando a mulher apoia as pernas nos estribos, começam a disparar perguntas sem qualquer relação, para que, por momentos, ela se esqueça da posição impudica em que se encontra. Por vezes resulta. Geralmente não. Então pergunta-lhe se o sente mexer. Dantes sim, mas cada vez menos. É normal?

Um avatar. O rosto do médico envelhece, de repente. Ela apoia-se nos braços e pergunta-lhe: o que se passa, Sr. Dr.? Ele diz-lhe: vista-se!, quase como se não a tivesse ouvido. Ela insiste: o que se passa, Doutor? Responde-lhe o médico: temos um problema, o feto está morto.

Ela está silenciosa e o seu rosto não diz nada.

O Peso dos Halteres

Comecei há quase 13 anos. Vai fazer agora no Domingo de Ramos. Cheguei no meu Opel bordeaux de 87, com o Nero como única companhia. Entretanto morreu de esgana, e nunca mais quis nenhum meu. Bastam-me os outros.

Inicialmente era suposto ficar apenas 2 ou 3 meses, como substituta. Tinha acabado o estágio há pouco tempo, e pensei que era uma óptima oportunidade de aprender, com trabalho de campo. Mesmo não gostando da vila, aceitei.

Como o tempo foi passando e o veterinário que vinha substituir morreu num acidente com os copos, fui ficando por tempo indeterminado. Pelo menos até agora. É o que digo sempre.

Dou consultas no gabinete. Trazem-me sobretudo cães e gatos, mas como a vila subsiste da agricultura tenho muitas vacas e cavalos pra tratar. Para dizer a verdade detesto gatos, e a adoração é recíproca. Sempre que aqui aparecem, o caos instala-se. Estive até agora a limpar a merda que um fez quando lhe tirei um tubo de ferro galvanizado do estômago. Ás vezes acordo ansiosa pra que só me aparecam cães, que são muito mais meigos e honestos. Ou então simples vacinas, que dão um lucro danado.

Se algum estagiário ou pretendente a veterinário me perguntasse hoje qual o requisito essencial para o ser, diria músculos. Músculos e mais músculos. Já pensei em ir para um ginásio, mas fazer 30km ao fim de um dia de estafa não me agrada muito. Tratar de vacas com 700kg ou cavalos de 800kg não é tarefa fácil.

Dias há em que chego a um estábulo, e me apetece ter sido professora primária. A vaca está a sofrer. Vai parir mas o vitelo está ao contrário dentro do útero. Dispo-me pra ficar apenas em t-shirt, lavo as mãos em sabão perdido, calço as luvas que me chegam às axilas, meto uma mão na enorme vulva enquanto acaricio o lombo com a outra. Um vitelo pode chegar aos 60kg, e virá-lo sozinho continua a não ser fácil. Por vezes são sofrimentos paralelos. O meu, que por falta de confiança julgo nunca ser capaz de resolver o que me pedem, o dos animais, a quem já vi deitar lágrimas silenciosas, e o dos donos, para quem os animais são o ganha-pão.

Já me aconteceu olhar para o lado. E o camponês apercebe-se que tem de ser aberta, e desta vez vai ser mais caro. Mas já me aconteceu virar vitelos à primeira, e trabalhar pro bono. Depende da sorte. E dos músculos. Também já cheguei com o bicho morto, e para não prejudicar a vaca, tem de se cortar aos pedaços, e tirá-los um a um. É horrível para todos.

Parece que consegui.

De volta ao consultório, bebo um martini e lembro-me novamente dos halteres. Devia mesmo ir.

De quando em vez conheço alguém, que nunca consigo manter. Talvez seja da forma das mãos, em pá. Ultimamente tenho saído com um professor do colégio, nem me lembro que disciplina lecciona. Vamos ao cinema ou jantar fora, e ele aproveita para se armar em intelectual. Mas eu sei que me tenho tornado saloia. Empresta-me livros e alguns cd´s, e quando me apetece fodemos. É sempre bom.

Ontem ligam-me fora do horário de expediente, mas como era uma suposta urgência, não disse que não. Como me custou...tinha estado a trabalhar durante todo o fim-de-semana, e já não parava há muito. Não disse que não.

Quando cheguei notei algo estranho. As luzes estavam apagadas, e bati com estrondo no portão ondulado de zinco, para acordar os vizinhos, mas já era tarde. Disse-me um dos dois: ouvimos dizer que não és uma mulher de verdade, ou és? Estamos aqui para comprovar. Até vais ganir como uma vaca! O outro ria-se, enquanto espetava uma garrafa de macieira na boca.

Foderam-me deitados. Estavam demasiado embriagados para se manterem em pé. Eram ridículos. Tudo neles era ridículo. Magoaram-me horrivelmente. Além de me penetrar enquanto houve tesão, batiam-me cruelmente com as costas das mãos. Repito: magoaram-me horrivelmente. Depois de ejacularem, caíram como tordos e adormeceram de imediato.

O alcoól tornou-os inofensivos, mas ainda assim fui à carrinha buscar a minha maleta. Administrei-lhes duas doses de ketamine a cada um. Não queria surpresas. Calcei umas luvas e desinfectei tudo com betadine. Depois puxei a pele do escroto e fiz várias incisões com o bisturi. Peguei nos testículos e cortei-os. Cosi tudo deitei o resto no lixo. Seguiu-se o que me tinha telefonado, e que fora mais bruto. A esse enxertei-lhe o par de colhões na maça de Adão, e o pénis guardei-o num saco que lhe escondi num bolso das calças. Para recordação. Um trabalho muito asseado.

Eram quase 23h. Dirigi-me a casa da vizinha e pedi que chamasse a polícia. Tinha ocorrido uma violação. Muito consternada anuiu. Aguardo.

Só espero que não liguem as sirenes. Detesto o barulho das sirenes.

Penso aquele dia em que o tempo não existe

Lá fora, deparo-me com a rebeldia das cores em todos os tecidos, todas as maneiras de se ser. Aqui, o ar é lúgubre mas respirável. Angustiada, pego no saco das compras pelas abas, com toda a força que consigo sentir, e dirigo-me para as cadeiras reunidas à minha direita. Arrumo os óculos na amálgama mal disposta em que a mercearia se dispõe. Sento-me. Ao subir o corpo, deparo com duas senhoras idosas que me fitam com aquele olhar de fusão soerguida, ao qual já me habituei, por estas horas demasiado caras de (sobre)viver. Conspiram.
Pego Nele e aperto-o entre o suor das minhas palmas e o peito mirrado, há muito fingido por um soutien decadente, tal como a carne que abraça. Junto as pernas, organizo metodicamente a biqueira dos escuros sapatos, encosto o polegar à proeminência de uma fronte rugosa. Sempre com Ele em mim, asfixiado. Esta paixão deixara já demasiadas crateras, estendera para sempre a vontade de partir. Procuro algo. Talvez ajuda, quem sabe um milagre. A própria alma me apodrece, divaga, anseia pelo fim.
Agradeço algo, sem saber bem qual o início e o fim de um agradecimento cínico. Penitencio-me, questionando-me o porquê de o fazer. Peço.
Peço todas as nuvens recheadas de calor e espuma; Peço todos os sentimentos de rafeiros espancados pelos donos; Peço toda a humidade dos desertos secos; Peço toda a cegueira de mil águias; Peço toda a vida que não tive, a que não aproveitei, a que perdi, a que me foi arrancada, como se arrancam as entranhas de um capão, com toda a ira dos homens e inveja dos deuses.
Peço de volta a minha sombra, rogo por ela, imploro, enquanto O aperto cada vez mais nas últimas das minhas preces. Ainda aqui, no silêncio do mármore confinado, e dos sons pálidos de um paraíso prometido. Será assim que termina? Seremos, como reza a estória, pó e terra, e a ela e a ela um dia voltaremos?

Tremo.

Retiro-O cravado da derme mais tenra que a ternura de um amor que existira algum dia, algures, pudera provar. Busco as lentes, o saco move-se. Fala com a sua língua de plástico. Adere à minha mão como um íman. Levanto este corpo débil, ordeno-o que se mova em direcção à porta.
A meio caminho, viro-me e olho-O uma última vez. Uma visão, esta visão! Fixo o olhar, sinto como se me estivesse a acariciar o coração com um sorriso, um sibilar de anunciação, o meu pedido.
As despedidas nunca foram o meu forte. Sugiro um até já em pensamento.

Abro a porta que encerra tudo atrás de mim.

Fruits

Sublimes peças, que nunca foram cantadas
Nunca poderão florir, mesmo com parra pelo chão.
Tantas asas, que nunca encontram o caminho,
O tempo escasseia, o metal enferruja.
Lembramo-nos do estilo de um verão,
As crianças, as crianças...perdidas, sem saber o quê? Neste mundo só encontras o negrume de um céu, escondido nas folhas caídas de um esquecido céu, para que essas mesmas frutas floresçam, num laivo de céu.
Só te conheço com chuva a escorrer no hiato dos globos. Abre-os lentamente. Observa.
Nunca te poderão florir braços, pernas, membros. Nunca te poderão crescer sorrisos, invejas.
Nem num sábado de manhã, em que o bafo (sem aviso) da madrugada estendida noite dentro. Não parecia muito, mas quando me lembro, dessas pessoas e lugares, raramente estavam nos seus devidos lugares, nos seus lugares, naqueles lugares deles, ao sábado de manhã.
Expulsa as ausências, pensa nas histórias, nos tempos a nascerem a poente, a investirem de épocas e de serões, e de sábados de manhã. Como o nosso e os eternamente nossos.
Sei que sabes o meu nome, mas eu não sinto o mesmo. Não culparei a roda por rodar. E todas as minhas canções são graves, mas apenas te digo o que é novo pra mim, e verdadeiro. Porque a roda tem rodado, sem parar de rodar, nesta redoma...a girar, e a pender, ora pra ti, ora pra nós.

O Patinho

Para onde caminhas, patinho feio?
Para onde te insurges, cauda de piano?
Meio palmo e mergulhas num clarão suspenso,
Entre o núcleo e o céu.
Para onde olhas, patinho feio?
Sobre a bruma fechada da matina,
E o cintilar escondido da agreste
Rima que é o vento.
Para onde choras, patinho feio?
Em teus braços despidos de carne
E providos de paz.
Para onde segues? Para onde?