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quarta-feira, dezembro 19, 2007

Morro noutro nome distante

Talvez hoje me deva despedir de ti. Tenho agora vinte e sete bocas urdidas em instantes eternos.

Talvez comece hoje a morrer na tua mão direita, em silêncio. E então iniciar-se-á uma quieta troca de pensamentos antigos, uma loucura quente e doce, como o sabor dum beijo imaturo.
Talvez ainda hoje o meu sangue não seja apenas sangue. Alguém mo poderá vir tomar nas mãos negras de incúria. Assim como se tomam coisas doentes ou animais moribundos. Eram assim os sorrisos rápidos e as lágrimas tolhidas por ti.

Talvez os degraus levantados onde se põem as palavras amargas, sejam corpos desvairados e a cinza que o passado leva. Agora que a confusão espalha sobre os passeios este frio hediondo, o tempo é cada vez menos sôfrego. Menos ansioso, digamos.

As luzes apagaram-se. Todas as estrelas me morrem ao largo. O som é discreto. O som é cego. É preciso desligar o céu, como se alguém o soubesse algum dia fazer.

Talvez te esteja a morrer na boca, na língua eterna e nua. Enquanto me lembro, vou-me apagando com as luzes. Sorrio e descubro as grandes razões da insanidade do amor. É preciso tentar, ter alma e sentir.

Talvez assim me desfaça mais gentilmente. Ás vezes levantava uma perna e ficava ali, a arder. Era simultaneamente tenebroso e catalítico. Eu julgo que terei amado todos os pedaços. Se efectivamente deixei algum de lado, não foi por querer. Sempre pensei que o meu lado era aquele que levitava com opulência. E já tinha então as palavras de um homem. Todas as que se têm para ondular as águas todas do mar completo.

Talvez a vida fosse madrasta. Dizem que algumas são boas, quem sabe!

Talvez esteja hoje a chegar o meu tempo. Chega sempre o nosso tempo quando não estamos à espera de ser chamados, não é? Afiançamos isso mesmo. Mas chega sempre um dia em que o coração ressoa e as dores não são mais do que meras desculpas obscuras.

Agora já nem durmo. Estou iluminado por dentro e por fora, e enquanto o dia vai, canto o meu sangue profundo. Deixo os arbustos do corpo ao desdém da imperial insensatez. Sou um monstro de confusão e apenas renovo as palavras. As próprias que tu inventaste para mim. Eu olho-as, descubro-as novamente a cada origem. E vejo palavras dentro das palavras, sobre um sopro de esquecimento. Aquecem-me, trazem conforto. Sou uma onda dentro delas.

Talvez seja agora um bom momento. Tenho os ossos quentes e firmes. Apesar da carne batida, tenho os ossos firmes. Deambulo à espera. Com a cara, procuro a frescura dum girassol, dum chilrear de cotovia. Há uma mudez aterradora no espaço em volta. Só eu provoco este crescimento de som, na vagareza da carne. Falo já tão devagar, que o pensamento absorve o som, enterra-o no anterior pensamento. Sou apenas uma coisa enorme. Demasiado improvável. Sou agora todos os mortos, todos os que me amam, entre rios do mundo, entre coisas imperceptíveis na noite eterna.

Rio porque sou uma criança. Uma pequena candeia de amor e de sonho. Sou apenas um poema.
Talvez agora seja um poema.

Música de fundo – Arvo Part – Spiegel im Spiegel

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Bem rapaz, além de teres muito bom gosto musical, escreves bem! Do pouco que li até agora, apreciei particularmente este texto. Disse-me muito. Vou continuar a explorar aos poucos e a ouvir música boa ;)

beijo

11:29  

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