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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Pergunta --> Resposta

Ela disse: O que é que sonhaste esta noite?

Ele disse: Sonhei contigo. Várias vezes, infinitas vezes, infinitos sonhos que se prolongam noite após sono, sono após noite. E és apenas uma ardente confusão, uma criança no vento alado após a cegueira acesa. Sonhei que éramos um só. Outra vez, como tantas vezes. E nunca mais isso será tão real como a existência do ruído,
da loucura do ruído, por trás da loucura do ruído, como os teus olhos imensos a olharem-me a alma. A perseguirem-me os sentidos.
Não durmo, apenas sonho.

Sonhei que era apenas um mau sonho. E vi-te já demasiadas vezes, desde. Seremos eternos, análogos, existências de ambos. Amados, ardentes amantes. Sonharemos o tempo, aquele miserável tempo das coisas pueris. Sonharemos alto as cousas da loucura, na paisagem que és tu e sou eu, sempre eu e tu.

Sonhei, não senti. Já não sei o que é sentir, deixei de o saber. Deixei de sentir o saber das coisas, a sensação de verdade das coisas. Aquelas formas incrustradas na inspiração da cabeça. E enquanto a vida se vai extinguindo num supremo amadurecimento, a boca respirando o sangue, as mãos transparentes a ouvir a melodiosa dor da idade. Enquanto isso, encontro aquele repouso frio e intenso
que conheço. Enquanto sonho, quem me dera ser destruído por esse sonho. Desejaria eu ser destruído por um lento milagre interior. Uma cor.

A nossa. Sonhei com ela. A primeira pergunta. O primeiro adormecer. Aquele calor na tua boca rodeada de sonho e timidez. Sonhei com faróis. Um vai e vem de ternura a escorrer pelos chãos desta sombra.

Eu sei. Quero dizer, eu amo. Quero dizer, sonhei.
Sonhei contigo.
Sonhei o negrume do nada. O abstrato das minhas mãos encostadas ao alto, lá bem no alto. A desejar a tua alma pura. Como quem pede por uma manhã de junho. Sem suor e sem calafrios. A paz no interior do sonho, sem agruras e sem pântanos.
Eu era a baixa lua com quem os rios sonhavam. Era todas as imperfeições perfeitas.
E um dia morri.
Sonhei que morri. Sonhei que estava vivo e morri. Sonhei que estava a sonhar acordado.
Um sonho, foi apenas um sonho. Tomo nas mãos pequenas o que aquece a carne, o que ilumina a cabeça. Sou a voz universal de uma boca apenas.

Sonhei contigo. Que sonho.

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