Fúria
No entanto, foi atacado por uma melancolia. Aquela acostumada tristeza clandestina. Para ele, algo estava desordenado no lugar comum que se tornara a sua rotineira sensação de existir. Desde que a juventude tinha desistido dele, não sabia como lidar com a simultanea tentação de odiar todo o movimento imberbe e reconciliar-se com a realidade crescentemente postiça - quem não teme a verdade do desprezo? - dos agitados cidadãos. Pareciam-lhe saídos de frascos de marmelada gelatinosa. Uma alternativa lânguida às gentes do seu tempo. A Ela. Todas as questões que lhe fugiam ao outrora poderoso alcançe atormentavam-no. A falta dele, porventura a sua maior transfiguração enquanto homem, tornara-o mesquinho. Durante década e meia, conseguira acinzentar as páginas da sua vida com vociferantes reacções e alusões à impropriedade dos locais. Dos cenários, dos sentimentos, dos comentários, dos amores. Apesar da distância temporal, pedia para ele mesmo desculpa à mulher. Talvez por vários motivos. Talvez por nada. Então, recolhera-se dentro de si mesmo. Em posição fetal, sobre a cama, via agora o bafo quente espalhar-se na cal gasta da parede, formando imagens imperceptíveis. O tempo parara, com o olhar turvo pela memória. E assim se perdeu do corpo.


