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quinta-feira, dezembro 10, 2009

Árvore da vida

São escuros os teus dias. De dia. São transparentes de negrume.
De dia. Uma folha sustentada pelo ardor do teu respirar. Atroz. Lamento, mas é atroz o teu respirar. Como uma leve máscara de amor e som e titubeantes violinos que se despem em harmoniosa dissidência, como mulheres se desnudaram já na minhas mãos. Frio, o teu arfar.
Que imensidão de dia, negro dia. Que altivo, este meu sonho de acordar e não ser mais uma hora de um dia teu, dos teus! Sobe-te o dia pelo sangue e pela segurança da palavra que nele se encerra, que nele segura as lágrimas feitas de ave. É a palavra que se esconde na sombra da dor da minha mão. O teu dia é um gesto na memória dos livros que li e amei. Nos livros de pernas cruzadas e de cigarros extintos com um olhar breve e tímido. Na palavra fria do teu dia.

O teu dia é uma noite. É suponhamos um título. Um fogo fátuo de dia. Um lusco fusco. É uma noite.

Morres de dia, enquanto os povos se revestem de penumbra, febris. Enquanto os olhos dos anjos se incendeiam e o sol se enterra nas dunas. No firmamento do dia, vais desesperadamente vagueando pela cor escura do teu dia. Dias de infortúnio que abraças estranhamente, em direcção a lado nenhum, à cegueira. De dia. Estás doente, bem sei. Nota-se pelo teu respirar, pelo teu odor a poeira. Deixas um rasto a desilusão sobre o papel, uma boca escancarada de estilhaços. Ainda tentas esgravatar com o pulmão, mas talvez fosse melhor sair desse registo, desse teu dia.

Tens nesses dias cidades contaminadas de negro, de pensamento. A criança existe ainda em ti, mas o eco ressoa já longe, sem ritmo, digamos. Sem a excentricidade de um infante, com os contornos da sua cabeça. Pára um pouco, dissemina o teu tempo por todos os teus alados músculos que te suportam.

Olho agora para o teu regaço de mudez, nu. Como foste minha e bela e simplesmente amor. E o confinamento de planos que estavam fora de nós, passaram a ser nós e eles. E o teu rosto à janela, cintilando a chuva cansativa onde o cio nos foi ensinado. Onde a tua boca era um halo doloroso e eu silêncio. Tinhas um canto na tua forma. Como um violino despido. Despido. Foi aí que arrisquei a razão. Por ti.

O meu dia há-de chegar. Eu contemplo-o, ao longe. É do fundo do mar, o meu dia que há-de chegar. Passo a velhice pelos cabelos, a mão pela memória de ti. Lembro a gota fecunda a que chamei poema. A que chamei vida. A que chamo saudade. O teu corpo é agora ausência, é o dia, escuro.

Que nome é o teu, se não sou eu a chamá-lo? Se não estou já aí contigo, para respirar a tua boca e sentir o teu gélido corpo? Um dia, chama por mim. Se desejares muito, chama por mim.
Um dia. Se pensares em mim, ou desejares-me ainda, talvez o último carvão incendeie as nossas heranças e nos ilumine mais um dia. De que me serve morrer inocente se o corpo que me sepultou a memória é o teu? São tuas as raízes que me cercam. E o teu nome é a ausência dele, pois é a palavra que vai queimando a minha escrita nocturna. O teu nome.

Os teus dias são negros, mas quando as mãos encontrarem as mãos e os olhos cegarem os outros, talvez aí a noite se deixe iluminar pelos dias passados, e a estória recomece numa outra neblina perfumada, onde o ar morno de ti estremece os corpos, que somos, para sempre, no fim do teu dia.

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