Um pouco mais a sul
O investigador é o seu próprio narrador. Impõe-se-nos pelo poder oco das suas concepções, hipotéticas divagações, atalhos semeados nos segredos físicos pungentes que vai martelando com cor de mármore no seu quotidiano. É belo contemplar a sua ruína, o desmoronamento dos seus pilares jónicos, das suas incontestáveis aflições. Quem pode compreender os motivos que os prendem a uma causa, um remorso, um milagre?
Eu te saúdo, velho amigo desconhecido. Queres-me dizer que tens algo? Algo ainda sem baptismo? Apesar da tua elegância e despreocupada aparência, sentes-se usado, não é? Vamos dar nome ao algo que tens contigo. Vamos ser particularmente terríveis e líricos nesse belo empreendimento.
E a tua superioridade, como te dás com ela? Agora que não se desfaz nem resplandesce ao teu passar, fica apenas um perfume das tuas aspirações a belo, correcto? Eu sei, meu caro. Eu próprio já fui tu, sendo eu. Também eu já senti esse irónico contraste, a mais burlesca antítese que jamais se viu na criação: não me amando, detesto-me. E no entanto, volto ainda a mim, este frágil invólucro de alma.
Pergunto-te: desejas ser meu irmão? Meu semelhante, talvez? Dessa forma deixarias de sentir o paladar amargo da beleza, a trémula mão do carrasco com o seu justo machado sobre o teu ser. Eu sou o símbolo da identidade, uma vaga mais furiosa que alimenta as areias de sal. Trago oculto no meu regaço milhares de futuros por erguer. Tenho todos os temperamentos e conformações desde os primórdios argilosos da esfera geométrica.
Sentes que nada te é impossível? Ao início, parecia uma anomalia, mas agora as raízes estão ocupadas contigo, trabalham com o teu corpo como um instrumento, um doce adágio que desdém do seu semelhante, no seu covil. Do teu olhar saem cristais em chamas e oceanos lugubres com profundidades vertiginosas. Sentes-te tão imenso, que para te contemplar, um só horizonte não é suficiente. Eu te ensinarei a desdenhar os teus ossos. É forçoso que sintas a tua imperfeição, mesmo no calor do teu leito, nas tuas resolutas tentativas de salvar todas as espécies de animais que voam, que andam, que gemem, que choram, que sentem tudo o que tu não te imaginas capaz. Ensinar-te-ei a destilar sentimentos e acabarás possivelmente a comer o teu próprio coração, com essas lividas garras, num exercício que mais tarde confirmaremos como redundante mas que abrirá precedente a toda uma nova dimensão no perpétuo caminho da tua superioridade. A tua grandeza não terá limites, infinito em imagem, como o amor de um recém-nascido, pois ainda não conhece o espectáculo das suas futuras misérias.
Serás mais belo que o teu reflexo, porque voltarás aos braços ardentes da providência. E na tua hora extrema, em que os olhos já secos retardam o último sal, chamarás por mim e eu estenderei a minha glória sobre o sofrimento que fez de ti prisão. Nesse instante, adormeceremos na falésia.
Eu te saúdo, velho amigo desconhecido. Queres-me dizer que tens algo? Algo ainda sem baptismo? Apesar da tua elegância e despreocupada aparência, sentes-se usado, não é? Vamos dar nome ao algo que tens contigo. Vamos ser particularmente terríveis e líricos nesse belo empreendimento.
E a tua superioridade, como te dás com ela? Agora que não se desfaz nem resplandesce ao teu passar, fica apenas um perfume das tuas aspirações a belo, correcto? Eu sei, meu caro. Eu próprio já fui tu, sendo eu. Também eu já senti esse irónico contraste, a mais burlesca antítese que jamais se viu na criação: não me amando, detesto-me. E no entanto, volto ainda a mim, este frágil invólucro de alma.
Pergunto-te: desejas ser meu irmão? Meu semelhante, talvez? Dessa forma deixarias de sentir o paladar amargo da beleza, a trémula mão do carrasco com o seu justo machado sobre o teu ser. Eu sou o símbolo da identidade, uma vaga mais furiosa que alimenta as areias de sal. Trago oculto no meu regaço milhares de futuros por erguer. Tenho todos os temperamentos e conformações desde os primórdios argilosos da esfera geométrica.
Sentes que nada te é impossível? Ao início, parecia uma anomalia, mas agora as raízes estão ocupadas contigo, trabalham com o teu corpo como um instrumento, um doce adágio que desdém do seu semelhante, no seu covil. Do teu olhar saem cristais em chamas e oceanos lugubres com profundidades vertiginosas. Sentes-te tão imenso, que para te contemplar, um só horizonte não é suficiente. Eu te ensinarei a desdenhar os teus ossos. É forçoso que sintas a tua imperfeição, mesmo no calor do teu leito, nas tuas resolutas tentativas de salvar todas as espécies de animais que voam, que andam, que gemem, que choram, que sentem tudo o que tu não te imaginas capaz. Ensinar-te-ei a destilar sentimentos e acabarás possivelmente a comer o teu próprio coração, com essas lividas garras, num exercício que mais tarde confirmaremos como redundante mas que abrirá precedente a toda uma nova dimensão no perpétuo caminho da tua superioridade. A tua grandeza não terá limites, infinito em imagem, como o amor de um recém-nascido, pois ainda não conhece o espectáculo das suas futuras misérias.
Serás mais belo que o teu reflexo, porque voltarás aos braços ardentes da providência. E na tua hora extrema, em que os olhos já secos retardam o último sal, chamarás por mim e eu estenderei a minha glória sobre o sofrimento que fez de ti prisão. Nesse instante, adormeceremos na falésia.


