Tentações
Disfarçado de medeia, o vento sibilava para onde mais lhe convinha. Ele distribui o êxtase com fulgor. Trá-lo nas mãos de dor, e nas asas um caixão. Nele mergulhamos e a sua voz é o adormecimento implacável das batalhas medievais. O sopro.
Durmo na Atlântida, onde Ulisses sulcava ondas como um vicio. Daqui vejo um coração em pleno céu, sob a forma de tumor. Abraso-me subelevado pelo arrebatamento extremado desta visão. Sinto uma pulsação ritmada e semi-musical na minha canalização sanguínea. Estes extâses celestiais são febris e enchem-me de volúpia. O poeta.
Penso e chamo. Em murmurio, mas ainda o chamo, concretamente. Quando se colhe um olhar ou uma rosa, tornam-se frias as minhas mãos. Não há vida nas carnes emprestadas. As mãos não são minhas, penso. Porque as tento devolver à vida, e ainda assim, elas não me obedecem. Estas mãos serão de outrem. De alguém, mas não minhas. Foram talvez anexadas, enxertadas, coladas ou tornadas minhas pela força de alguns anos, de algum hábito a vê-las aqui, perto de mim. Conheço-as, mas são demasiados dedos, é bizarro, um ultraje, leves e inertes. Estas mãos que são de algum louco, obscuras mãos, decepadas mãos. Poeira de primavera. Alguém as deixou esquecidas sobre um corpo de mulher, e eu resgatei-as. O sonho.
A minha voz é um gerundio contínuo. Misto de labor mudo e suor. Se alguém a quiser é só pedir, mas não prometo. Já eu a tentei em vão arrancar pela raíz, mas o grito é difuso e responde calado às solicitações que vêm de fora. Foge e retorna, vai e vem isolado, deixa-me cego sem fala, sorri e assusta-se, mas não prometo. É a leve doçura do silêncio. E ainda assim, trago-a comigo. O som.
Durmo na Atlântida, onde Ulisses sulcava ondas como um vicio. Daqui vejo um coração em pleno céu, sob a forma de tumor. Abraso-me subelevado pelo arrebatamento extremado desta visão. Sinto uma pulsação ritmada e semi-musical na minha canalização sanguínea. Estes extâses celestiais são febris e enchem-me de volúpia. O poeta.
Penso e chamo. Em murmurio, mas ainda o chamo, concretamente. Quando se colhe um olhar ou uma rosa, tornam-se frias as minhas mãos. Não há vida nas carnes emprestadas. As mãos não são minhas, penso. Porque as tento devolver à vida, e ainda assim, elas não me obedecem. Estas mãos serão de outrem. De alguém, mas não minhas. Foram talvez anexadas, enxertadas, coladas ou tornadas minhas pela força de alguns anos, de algum hábito a vê-las aqui, perto de mim. Conheço-as, mas são demasiados dedos, é bizarro, um ultraje, leves e inertes. Estas mãos que são de algum louco, obscuras mãos, decepadas mãos. Poeira de primavera. Alguém as deixou esquecidas sobre um corpo de mulher, e eu resgatei-as. O sonho.
A minha voz é um gerundio contínuo. Misto de labor mudo e suor. Se alguém a quiser é só pedir, mas não prometo. Já eu a tentei em vão arrancar pela raíz, mas o grito é difuso e responde calado às solicitações que vêm de fora. Foge e retorna, vai e vem isolado, deixa-me cego sem fala, sorri e assusta-se, mas não prometo. É a leve doçura do silêncio. E ainda assim, trago-a comigo. O som.

