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sábado, março 29, 2008

As duas, os dois.

Ontem voltei a perder-me na tua dor, meu amor.
Ontem matei-te. Nós, o meu amor. Nesta margem.
Agora amo o teu cadáver, sem ti que estás sobre as minhas asas de perfume negro.
Agora não sabes a nada quando te beijo e tenho medo. Sinto pavor de falar em ti ou tocar o teu esqueleto, enquanto o meu coração sussurra. O terror tornou-se agora numa cegueira fria e agonizante. Quero arrancá-la. Tanto, tanto que não calculas. Para te ver.
Agora nado para longe, contigo, meu amor.
És uma teia e eu tecido de memória. Ao longe, ouço crianças gritar sangue lento pelas tímidas goelas pueris. O aço derrete. O animal poeta ferve. Os trovões desaguam nas minhas veias. E nado contigo para longe. Meu amor.
Somos ainda dois inocentes. As hienas babam-se na parada, mas as fendas por onde nos perscrutam são cada vez mais estreitas. E a luz está deste lado. Somos um romance assassinado, em pedaços desfeitos e belos. Somos um sonho devorado, mas um sonho ainda.
Eu sou a estupefacção em forma de arcanjo. Um cemitério de garras e matéria por acabar.
Na outra margem, o teu corpo sob o sol. Os ossos estalam de vida, e o branco da salina desespera, fugidio.

Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.

Agora morres aqui, nesta margem, na minha ausência. E quando eu morrer, as margens serão mentira e o pó um mero espelho.

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