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sábado, junho 14, 2008

Nenhum mar é eterno

O último homem cobre-se de dor melancólica, na noite volante que se assemelha ao ouro incendiado. É agora o coração póstumo, errando no fraco corpo. Apenas desacelerando o próprio batimento enquanto na rua os sons são nómadas de um abandono pueril. Tem na boca um cuspo destruído, um mar imóvel repleto de noites sábias e espaços trémulos, como quando as aves se despediam à janela. Estavam...surpresas na paisagem de ti dentro de ti.
Aquela cor de angústia, ácida e lenta que trazia nas mãos, e cegava a todos os que agora recorda. Não sabia ainda descodificar os seus erros, e a cidade flutuava à sua volta. Os passos flutuavam, o sangue tremia no tempo, a solidão do sangue no espaço ocupado pelo tempo, e a memória. Crescem sombras à sua porta como viveiros de ostras nos antípodas, onde no esquecimento do rosto deambulam nomes e cidades e rios e medos.
Só quem lhe sentiu o âmago pode agora devassar a inocência de mil poemas. Um poema vivo, crescente, resignado no estremecer da luz e no espelho do hábito, inunda as viagens que faremos um dia. E que um dia ainda seremos.

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