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terça-feira, maio 20, 2008

Ao que parte

Traça-se uma linha viva tão imediata e lenta como um início de universo. Cheia de substância e nomes enlaçados, tranquilos tesouros, anuências azuis de um flexível respeito. Anda-se sobre a imprecisa linha, que de ver uns morrem e na imobilidade do tempo, outros nascem.
Nada fora dito antes da linha, porquanto o esquecimento devora o que não é linha e cresce nela uma nova consagração, um alvor na matriz do devir.
É assim que somos livres quando nas ruínas de uma cidade esquecida,
o passado, o presente, o futuro,
são uma linha por traçar.

segunda-feira, maio 12, 2008

Tempo branco de firmamento

O medo viaja de rosto em rosto, e o meu vazio é um infinito ódio, pena e silêncio. Silêncio quebrador e juízo perene.
Entrega-te, coração. Piedoso coração de braços erguidos e face voraz. Tens agora dez eternidades de sombras e a tua orla é cada vez maior entre a floresta. Estende-te e dá forma à harmonia sem cuidar do olhar alheio.
Há ainda alguém que sente. Há ainda alguém que lembra.
Um encontro é sempre um universo, e na palavra arde ainda uma trémula audácia.

domingo, maio 11, 2008

Tentações

Disfarçado de medeia, o vento sibilava para onde mais lhe convinha. Ele distribui o êxtase com fulgor. Trá-lo nas mãos de dor, e nas asas um caixão. Nele mergulhamos e a sua voz é o adormecimento implacável das batalhas medievais. O sopro.

Durmo na Atlântida, onde Ulisses sulcava ondas como um vicio. Daqui vejo um coração em pleno céu, sob a forma de tumor. Abraso-me subelevado pelo arrebatamento extremado desta visão. Sinto uma pulsação ritmada e semi-musical na minha canalização sanguínea. Estes extâses celestiais são febris e enchem-me de volúpia. O poeta.

Penso e chamo. Em murmurio, mas ainda o chamo, concretamente. Quando se colhe um olhar ou uma rosa, tornam-se frias as minhas mãos. Não há vida nas carnes emprestadas. As mãos não são minhas, penso. Porque as tento devolver à vida, e ainda assim, elas não me obedecem. Estas mãos serão de outrem. De alguém, mas não minhas. Foram talvez anexadas, enxertadas, coladas ou tornadas minhas pela força de alguns anos, de algum hábito a vê-las aqui, perto de mim. Conheço-as, mas são demasiados dedos, é bizarro, um ultraje, leves e inertes. Estas mãos que são de algum louco, obscuras mãos, decepadas mãos. Poeira de primavera. Alguém as deixou esquecidas sobre um corpo de mulher, e eu resgatei-as. O sonho.

A minha voz é um gerundio contínuo. Misto de labor mudo e suor. Se alguém a quiser é só pedir, mas não prometo. Já eu a tentei em vão arrancar pela raíz, mas o grito é difuso e responde calado às solicitações que vêm de fora. Foge e retorna, vai e vem isolado, deixa-me cego sem fala, sorri e assusta-se, mas não prometo. É a leve doçura do silêncio. E ainda assim, trago-a comigo. O som.