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terça-feira, dezembro 25, 2007

Travessia em tempos maduros

Inclinado sobre o volante, esperei por um gesto teu. Um pálido toque, um acorde.
Na volta do farol, o vento toldou-me a vontade. Uma vontade irrepetível até este inútil momento. Roí o esmalte e engoli em seco, pois o relógio não parou na noite. A noite em que os anjos se deleitaram com o tremor dos nossos corações. O peso dos deuses sobre os corpos fracos, imberbes.
Foi aí que me calaste sem subtileza. Paraste o fluir do sangue, o escorrer do negro sangue.
Deixa-me ouvir, com o teu sorriso imperativo e metálico. Eu deixo.

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segunda-feira, dezembro 24, 2007

Lunar

E chegou o amor, virado para dentro.
Traz consigo mãos frias e coisas que dizemos ao de leve.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Hoje é o tal dia, pelo qual sempre sonhaste,
Sabes que ele chegaria, nunca desesperaste.
E a surdez toma-te o corpo, as asas
Elevam o teu esplendor.
É o amor, é o amor.
E eis que se despe no teu turno, no teu solitário caminho.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
A veia do sentido, do nosso sentido.

Então parei pra dizer um sofisma, um abrigo,
Trago comigo este ardor, este amigo.
Então pensei o tempo a gelar,
O teu olhar sobre o longo mar.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.
Golpeia a veia do sentido, golpeia a veia do sentido.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A casa segura

A destreza dos dedos, a queimar folhas. Vislumbram discretamente tudo o que é húmido e sagaz.
A mulher pega no tempo e atira-o ao ar, brincando. É um jogo, uma mera posse que se esgota e se mastiga em si mesma.

Sigur RósVon

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Deep Purple

"Não é para mim", disseste.
Vou-te inteirar deste modo. Quero apenas que sintas a tonalidade das palavras. A sua sabedoria. O texto és tu, sem o teu sentido. Apenas força e ira, dentro dos vasos ramificantes da criação do teu ser. É a garra, a opulência das palavras e um querer desmedido. As estações graves e infinitamente inalteradas de ti. Em ti. É o titubeante Grrrrrr que soltas ao desespero do vento. Mais um som e emudeces os meses que respiram por ti . É o bafio rápido da desordem criada em torno dos demais. Somos todos demais. Desconexos, infatigáveis, inacabados seres. Mais e mais vão brotando do tempo.
És o texto escrito quotidianamente com a soltura da memória presa. Pára o sangue de correr, inocente sangue parado. És uma fonte solar, um ermo de ensinamentos perpetrados pelo tic-tac das obrigatoriedades escusas.

O contexto. Serve-lo morno, com a tua cabeça musical. O pedaço de ti com o teu sentido dentro. O humanamente inaudivel, sensorial, que espalhas em gestos e ensinas ao sol. No céu podes tecer nuvens violetas com notas musicais. Toda a tua alegria, bordada a silêncios velozes. És um lugar de esplendor virgem cujo nome estremece nos dedos e se lê na tua pele morena.
Tenho presente a imagem de ti. Fitavas o mar ansiosamente. Destruia-lo com o teu amor, por cima dum desespero fulminante. Ele esperava por ti, em todo o teu esplendor. Absorto contigo, apenas teu. És uma paixão bárbara, uma leve doçura de campo melancólico. Mistura de senhora e criança em mulher feita deusa. És o enigma do verão, aquele cujo amor te prende um fechar de olhos mais enebriado.
Nasces dos pés, ou das folhas, és uma canção inocente e anunciada. Temo-te. Os demais temem-te os passos, querem beber de ti, das tuas lágrimas, da tua suavidade. Estrangulas a beleza com a eternidade de ti. Na teu corpo exaltado.
E o meu pensamento quente está agora contigo.


Música de fundo -
Max Richter - Bach Shadow

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Movimento em código

A imagem engolida
pelo pesar. Desfeita,
abruptamente,
pelos olhos das
crianças. Inertes e
estonteantes, em sua
aglutinação de força. A
imagem era imagem.

Ouvi dizer um tempo assim,
mais concreto e perene que
o aço moldado pelas falanges dos
antepassados. Mais impossível que
as câmpanulas sobre os trevos do
que há-de vir. Ver o meu melhor, o
meu pior. Angústia do interior
do ser. Medo e ódio. Suspiros de
hetero-destruição, de amor apagado
e talvez presente. Ou então
apenas coisas errantes, incertas,
desesperadamente graves.


Música de fundo - Sigur Rós - Samskeyti

Morro noutro nome distante

Talvez hoje me deva despedir de ti. Tenho agora vinte e sete bocas urdidas em instantes eternos.

Talvez comece hoje a morrer na tua mão direita, em silêncio. E então iniciar-se-á uma quieta troca de pensamentos antigos, uma loucura quente e doce, como o sabor dum beijo imaturo.
Talvez ainda hoje o meu sangue não seja apenas sangue. Alguém mo poderá vir tomar nas mãos negras de incúria. Assim como se tomam coisas doentes ou animais moribundos. Eram assim os sorrisos rápidos e as lágrimas tolhidas por ti.

Talvez os degraus levantados onde se põem as palavras amargas, sejam corpos desvairados e a cinza que o passado leva. Agora que a confusão espalha sobre os passeios este frio hediondo, o tempo é cada vez menos sôfrego. Menos ansioso, digamos.

As luzes apagaram-se. Todas as estrelas me morrem ao largo. O som é discreto. O som é cego. É preciso desligar o céu, como se alguém o soubesse algum dia fazer.

Talvez te esteja a morrer na boca, na língua eterna e nua. Enquanto me lembro, vou-me apagando com as luzes. Sorrio e descubro as grandes razões da insanidade do amor. É preciso tentar, ter alma e sentir.

Talvez assim me desfaça mais gentilmente. Ás vezes levantava uma perna e ficava ali, a arder. Era simultaneamente tenebroso e catalítico. Eu julgo que terei amado todos os pedaços. Se efectivamente deixei algum de lado, não foi por querer. Sempre pensei que o meu lado era aquele que levitava com opulência. E já tinha então as palavras de um homem. Todas as que se têm para ondular as águas todas do mar completo.

Talvez a vida fosse madrasta. Dizem que algumas são boas, quem sabe!

Talvez esteja hoje a chegar o meu tempo. Chega sempre o nosso tempo quando não estamos à espera de ser chamados, não é? Afiançamos isso mesmo. Mas chega sempre um dia em que o coração ressoa e as dores não são mais do que meras desculpas obscuras.

Agora já nem durmo. Estou iluminado por dentro e por fora, e enquanto o dia vai, canto o meu sangue profundo. Deixo os arbustos do corpo ao desdém da imperial insensatez. Sou um monstro de confusão e apenas renovo as palavras. As próprias que tu inventaste para mim. Eu olho-as, descubro-as novamente a cada origem. E vejo palavras dentro das palavras, sobre um sopro de esquecimento. Aquecem-me, trazem conforto. Sou uma onda dentro delas.

Talvez seja agora um bom momento. Tenho os ossos quentes e firmes. Apesar da carne batida, tenho os ossos firmes. Deambulo à espera. Com a cara, procuro a frescura dum girassol, dum chilrear de cotovia. Há uma mudez aterradora no espaço em volta. Só eu provoco este crescimento de som, na vagareza da carne. Falo já tão devagar, que o pensamento absorve o som, enterra-o no anterior pensamento. Sou apenas uma coisa enorme. Demasiado improvável. Sou agora todos os mortos, todos os que me amam, entre rios do mundo, entre coisas imperceptíveis na noite eterna.

Rio porque sou uma criança. Uma pequena candeia de amor e de sonho. Sou apenas um poema.
Talvez agora seja um poema.

Música de fundo – Arvo Part – Spiegel im Spiegel

domingo, dezembro 16, 2007

Apenas

Apenas a sombra do etéreo revela o que já um dia foste. Tudo. Apenas te observo daqui, deslumbrado, entre as descuidadas dobras de pedra e desmemoriadas águas do nosso infinito mar. Aquele junto ao qual demos as mãos, com as calças dobradas e o espaço em presença.
Revejo agora o alto das águas verdes de musgo. O caminho. No fundo, os corpos nus e desmembrados da loucura. Apenas a boca vibrante desse abismo onde te encontras agora deitada e é exaltação.
Apenas sinto o deserto com o seu vento fantasioso, sorrindo
aos corações das crianças. Elas, que seriam tanto de nós. Com aqueles caracóis dolorosos e os braços em sangue de tão finos.
Apenas desapareceste. É um pouco de ti, e misturas-te na lua que trago gravada no passado. É um erro pensar, desejar, sentir. A cabeça montada em rosas, que bebem do jeito de ser de uma delicadeza misteriosa, as árvores, a laranjeira junto à janela, a luz que entra permanentemente sobre os finos lençois. A fixa vontade extenuada. E tu outra vez com uma redundante negação.
É tempo. Apenas tempo de morrer no interior do vinho, cândido e ardente. Deixar em nós um fulgor de ausência e súbita
sombra de coral. E agora é só uma vida enterrada. Apenas

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Pergunta --> Resposta

Ela disse: O que é que sonhaste esta noite?

Ele disse: Sonhei contigo. Várias vezes, infinitas vezes, infinitos sonhos que se prolongam noite após sono, sono após noite. E és apenas uma ardente confusão, uma criança no vento alado após a cegueira acesa. Sonhei que éramos um só. Outra vez, como tantas vezes. E nunca mais isso será tão real como a existência do ruído,
da loucura do ruído, por trás da loucura do ruído, como os teus olhos imensos a olharem-me a alma. A perseguirem-me os sentidos.
Não durmo, apenas sonho.

Sonhei que era apenas um mau sonho. E vi-te já demasiadas vezes, desde. Seremos eternos, análogos, existências de ambos. Amados, ardentes amantes. Sonharemos o tempo, aquele miserável tempo das coisas pueris. Sonharemos alto as cousas da loucura, na paisagem que és tu e sou eu, sempre eu e tu.

Sonhei, não senti. Já não sei o que é sentir, deixei de o saber. Deixei de sentir o saber das coisas, a sensação de verdade das coisas. Aquelas formas incrustradas na inspiração da cabeça. E enquanto a vida se vai extinguindo num supremo amadurecimento, a boca respirando o sangue, as mãos transparentes a ouvir a melodiosa dor da idade. Enquanto isso, encontro aquele repouso frio e intenso
que conheço. Enquanto sonho, quem me dera ser destruído por esse sonho. Desejaria eu ser destruído por um lento milagre interior. Uma cor.

A nossa. Sonhei com ela. A primeira pergunta. O primeiro adormecer. Aquele calor na tua boca rodeada de sonho e timidez. Sonhei com faróis. Um vai e vem de ternura a escorrer pelos chãos desta sombra.

Eu sei. Quero dizer, eu amo. Quero dizer, sonhei.
Sonhei contigo.
Sonhei o negrume do nada. O abstrato das minhas mãos encostadas ao alto, lá bem no alto. A desejar a tua alma pura. Como quem pede por uma manhã de junho. Sem suor e sem calafrios. A paz no interior do sonho, sem agruras e sem pântanos.
Eu era a baixa lua com quem os rios sonhavam. Era todas as imperfeições perfeitas.
E um dia morri.
Sonhei que morri. Sonhei que estava vivo e morri. Sonhei que estava a sonhar acordado.
Um sonho, foi apenas um sonho. Tomo nas mãos pequenas o que aquece a carne, o que ilumina a cabeça. Sou a voz universal de uma boca apenas.

Sonhei contigo. Que sonho.