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sexta-feira, junho 04, 2010

Dentro do mar

É sempre uma chuvosa noite de inverno, quando ouço o murmurio do tempo
esquecido em ti. Bate em ti esta luz seca
e a cabeça fica muda com o peso da saudade. Ao longe, sinto-te num deserto, com flores hipnóticas e fontes poéticas.
É sempre bom cantar como um órfão
que respira vitória, com as pregas na cara
e as medalhas no peito de sal e teias.
Mulher de pavor, foste contornada para dentro, numa alhada
em dedicatória pensada. Estiveras só, no leito do rio que transbordava
sangue quente cor de vinho bebido pelos peixes
e pelos seixos em ânsia, em temor.

Em cada passo teu vive a ferida de uma geração, de cinzas
nocturnas, de sono e silêncio, e húmus estremecido
em palavras não ditas. Porque quem não ama não sonha, não ilumina as mãos
pela beleza dos dias e morre inspirado, contaminado, por
todas as vozes que lhe sussuram o único ofício que não domina.

Que doce é a destruição do tempo
quando me embrulho no teu sorriso e induzo a semente de estrelas
iluminadas pela noite em brilhantes gotas embaladas pela tua mão, sobre mim, sobre o mar.
Que doce, essa tua melancolia
crescente, sobre o sono perdido, na tua voz primitiva, de se ser amor
e sempre a cantar, por entre implacáveis ilusões de vidas perdidas.

Parte agora que já é dia.
Agora, que me gritam a realidade arrancada
e o som do teu fogo se extinguiu debaixo da minha língua, ao partir
no deserto insano de ti. Ouço apenas o teu hálito, o interior do teu corpo morno.
Para sempre há sempre uma voz
que transfigura a pedra, que dá vida às sombras, que estremece os corpos.

E eu sigo o teu som, num errante exercício de beleza, porque sem ti
não há mar, e é onde começa e acaba o mundo, de mão na mão, naquele lugar
onde o pensamento é uma canção e o teu corpo um alado violino.