Sendo tempo
Somos de muito longe e temos de voltar.
Um dia.
Morremos languidamente, desesperadamente e com um agreste cheiro a fogo. Quem sabe numa praia mais a sul, onde os dedos escorrem sonhos primitivos e as crianças.
Somos verdade e talvez eu apenas deseje mais um outono, com aquelas golas altas e sorrisos gelados, onde as ambições eram um poema por escrever.
Somos a brancura das mãos que demoram. A terra úmida, mastigada pelos olhares de gerações aguerridas, que são só palavras. E bocas. Chove lá fora.
Na terra mastigada e úmida, chove-lhe dentro. Está parada a ser chovida. Deixa-se penetrar, porque é uma palavra.
Somos a servidão de se ser primitivo. Sou Homem, todos os homens, nos teus braços loucamente abertos que me parecem raízes, esses braços. Esses teus pensamentos e olhos cansados que de tão imensos me engolem nesta pequena morte. Aqui.
Aqui estou mais morto. Mais aqui do que noutro lado qualquer. Porque é aqui a frase em que ingressaram os teus beijos secos e é aqui que nenhuma chuva ousa molhar a terra seca. Já morta.
Sou um nome. Habito o local nunca visto, contra este mesmo céu que te esmaga a fronte. Reparto os dias pelos nós dos dedos e separo o trigo para os corações tardios que transbordam de saudade e de nós. Somos a promessa vaga de rio, o rumor de cidade com tantas cousas e faz-se tarde. É tarde para envelhecer à tua porta. A tarde morre pelos dias fora e o canto do vento estende-se um pouco mais. É tarde agora. Ninguém morrera tanto como eu, tu bem sabes, mas sobre o meu rosto que cresce na horizontal, muitas águas se desfizeram e eu apenas te estendi a minha infância para te dizer: tu serás cada vez mais aquilo que tu és - entre o cheiro da maresia e a luz reflectida na ponte, ao longe. Morro literalmente no pensamento.
Todos os gestos. Sou todos os teus gestos e os teus ritmos. Vivo neles e respiro-os e sinto-os em mim e são-me verticalmente fundidos. Eles. Na linha dos meus dias, a minha face toda é um compromisso grande demais para dois olhos, e o meu íntimo mar, o meu amoroso coração, está gasto. É um diálogo recolhido, em que cada palavra aceite é apenas uma palavra e nela eu todo me sinto dito. Porque somos seres olhados. E estamos expostos, porque as pálpebras desceram e não mais te defendem.
Com a tua partida a minha estória começa. É essa a tua última dimensão conhecida. Levarei mais longe a tua vida e a terra será novamente úmida. Quando chegar o Outono, entenderás que a única estação é apenas aquela por onde subi até à tua última lágrima de saudade.
Um dia.
Morremos languidamente, desesperadamente e com um agreste cheiro a fogo. Quem sabe numa praia mais a sul, onde os dedos escorrem sonhos primitivos e as crianças.
Somos verdade e talvez eu apenas deseje mais um outono, com aquelas golas altas e sorrisos gelados, onde as ambições eram um poema por escrever.
Somos a brancura das mãos que demoram. A terra úmida, mastigada pelos olhares de gerações aguerridas, que são só palavras. E bocas. Chove lá fora.
Na terra mastigada e úmida, chove-lhe dentro. Está parada a ser chovida. Deixa-se penetrar, porque é uma palavra.
Somos a servidão de se ser primitivo. Sou Homem, todos os homens, nos teus braços loucamente abertos que me parecem raízes, esses braços. Esses teus pensamentos e olhos cansados que de tão imensos me engolem nesta pequena morte. Aqui.
Aqui estou mais morto. Mais aqui do que noutro lado qualquer. Porque é aqui a frase em que ingressaram os teus beijos secos e é aqui que nenhuma chuva ousa molhar a terra seca. Já morta.
Sou um nome. Habito o local nunca visto, contra este mesmo céu que te esmaga a fronte. Reparto os dias pelos nós dos dedos e separo o trigo para os corações tardios que transbordam de saudade e de nós. Somos a promessa vaga de rio, o rumor de cidade com tantas cousas e faz-se tarde. É tarde para envelhecer à tua porta. A tarde morre pelos dias fora e o canto do vento estende-se um pouco mais. É tarde agora. Ninguém morrera tanto como eu, tu bem sabes, mas sobre o meu rosto que cresce na horizontal, muitas águas se desfizeram e eu apenas te estendi a minha infância para te dizer: tu serás cada vez mais aquilo que tu és - entre o cheiro da maresia e a luz reflectida na ponte, ao longe. Morro literalmente no pensamento.
Todos os gestos. Sou todos os teus gestos e os teus ritmos. Vivo neles e respiro-os e sinto-os em mim e são-me verticalmente fundidos. Eles. Na linha dos meus dias, a minha face toda é um compromisso grande demais para dois olhos, e o meu íntimo mar, o meu amoroso coração, está gasto. É um diálogo recolhido, em que cada palavra aceite é apenas uma palavra e nela eu todo me sinto dito. Porque somos seres olhados. E estamos expostos, porque as pálpebras desceram e não mais te defendem.
Com a tua partida a minha estória começa. É essa a tua última dimensão conhecida. Levarei mais longe a tua vida e a terra será novamente úmida. Quando chegar o Outono, entenderás que a única estação é apenas aquela por onde subi até à tua última lágrima de saudade.

