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quarta-feira, agosto 31, 2005

Antes que anoiteça

“Passeio por ruas desmoronando-se

Em delapidados esgotos, por entre prédios de que se foge pois caem-nos em cima.

Por entre toscos rostos que nos medem e condenam, por entre lojas fechadas, mercados fechados, cinemas fechados, jardins fechados, cafés fechados, exibindo às vezes poeirentos cartazes justificativos.

Fechado para obras, fechado para renovação... Que género de renovação?

Quando termina a tal obra, a tal renovação? Quando sequer comecará?

Fechado, fechado, fechado, tudo fechado.

Chego, abro inúmeros cadeados, subo a correr a improvisada escadaria; ali está ela, esperando-me.

Encontro-a, destapo-a e contemplo a sua poeirenta e fria forma, sacudo o pó e acaricio-a.

Com pequenas palmadas limpo-lhe o lombo, a base, os lados.

Sinto-me desesperado, feliz a seu lado, de frente para ela passo as mãos pelo teclado e rapidamente tudo começa: com o ta-tá e o tilintar a música começa, pouco a pouco, agora mais rápida, agora a toda a velocidade.

Paredes, árvores, ruas, catedrais, rostos e praias. Celas, mini-celas, grandes celas, noites estreladas, pés descalços, pinhas, núvens, centenas, milhares, um milhão de papagaios, bancos e uma trepadeira. Tudo acode, tudo vem, tudo se aproxima.

As paredes recuam, o tecto some-se e flutuas naturalmente, flutuas desenraízado, flutuas arrancado, arrastado, elevado, levado, transportado, imortalizado e salvo.

Graças a essa inaudível e constante cadência, por essa música, por aquela ta-ta-tá incessante.”

RA

Esta mulher

Ia já a caminho de casa, quando decidiu parar na farmácia junto à estação de rodoviária. Não a habitual, pra não dar nas vistas, mas aquela perto da antiga casa dos seus pais, que frequentava em petiz. Provavelmente serão outros farmacêuticos, talvez até já nem me reconheçam, pensou. Entra e dirige-se ao balcão, onde aguarda a sua vez. É atendida por um baixote bonacheirão que lhe pergunta entre dentes: diga, por favor? Queria um teste desses de gravidez, tipo Predictor. Predictor era muito caro, mas o simpático homem lá lhe arranja um de semelhante efeito por metade do preço. Esconde-o rapidamente na mala sem fundo, para que ninguém se aperceba. Paga, o que à primeira vista lhe parece exagerado, mas depois de intrincadas cogitações assume que talvez seja até um oráculo bastante em conta. E afinal, saber algo tão importante, não valeria a dispensa de uns trocos?

Anormalmente calma, bailou por entre as cores da calçada, até avistar a porta de madeira opaca. Ao entrar, poisa a mala na companhia das chaves e telemóvel, na escrivaninha de pinho claro, que lhe dera a sogra como prenda de casamento. Acorre à cozinha para matar a sede, e, quem sabe, desatar o nó no estômago. Liga a TV, ignora, desliga. Dirige-se à sala, olhando a mala de soslaio. Senta-se no sofá, depois de descalçar os sapatos que lhe vincam a carne. Surge um primeiro pensamento. E o segundo. E não aguenta mais, não quer aguentar mais. Afinal, ele está já ali na mala, e agora que lhe veio a vontade de fazer chichi até calha bem.

Despe as cuecas, e enquanto urina sobre o teste, tenta imaginar o peso de ser mãe. Só a palavra sugere um misto de temor e responsabilidade. Naqueles breves instantes, consegue apenas imaginar as horríveis doenças que suplica que não atinjam um possível feto, mas pensa que sim. Naquele momento, o seu rebento padecerá de todos os males do mundo conjugados em dor e traduzidos num sofrimento atroz. Tudo numa só vida. Numa só existência. Agora aguarda os quatro minutos que vêm a negrito nas instruções. Pensa, vou fazer um chá enquanto aguardo. Aquece demais a chávena e queima os lábios. Vai à varanda, não se vê vivalma. É segunda de manhã, e quase todos labutam. Ela é uma das excepções. Pediu ao patrão para sair mais cedo, pois sentia-se mal, enjoada. Prenúncio? Já saberá. Volta à casa de banho e encosta-se à porta. Se for cor-de-rosa...tudo mudará. Tudo. Um filho, o séquito, um renascer na relação. Carne do meu sangue, da minha alma. É cor de rosa.

Tinha planeado mil e uma formas de contar ao marido. Encenações, tons de voz, surpresas. Mas disse-lhe às escuras, quando se abraçaram depois de fazer amor. Disse-lhe, estou grávida. E ele beijou-a.

Para já era segredo de ambos. Pelo menos para já. Mais tarde outros se aperceberam, ora pela frequência de indisposições, ora pelo incessante sorriso estampado. Ia ser mãe.

Por entre consultas, lazer e trabalho, ordem e bagunça, gritos e solidão, o tempo foi passando. Passando.

Ao quarto mês, a consulta da praxe. Tira o avental, toma um banho e prepara-se. Enfia a barriga atrás do volante e segue com o rádio em off. Concentra-se.

Já no consultório, pousa a carteira e senta-se. Por entre apertos de mão e resumos, diz-lhe o médico: dispa-se e deite-se na maca. Agora abra as pernas. Os ginecologistas têm aquele velho truque. Quando a mulher apoia as pernas nos estribos, começam a disparar perguntas sem qualquer relação, para que, por momentos, ela se esqueça da posição impudica em que se encontra. Por vezes resulta. Geralmente não. Então pergunta-lhe se o sente mexer. Dantes sim, mas cada vez menos. É normal?

Um avatar. O rosto do médico envelhece, de repente. Ela apoia-se nos braços e pergunta-lhe: o que se passa, Sr. Dr.? Ele diz-lhe: vista-se!, quase como se não a tivesse ouvido. Ela insiste: o que se passa, Doutor? Responde-lhe o médico: temos um problema, o feto está morto.

Ela está silenciosa e o seu rosto não diz nada.

O Peso dos Halteres

Comecei há quase 13 anos. Vai fazer agora no Domingo de Ramos. Cheguei no meu Opel bordeaux de 87, com o Nero como única companhia. Entretanto morreu de esgana, e nunca mais quis nenhum meu. Bastam-me os outros.

Inicialmente era suposto ficar apenas 2 ou 3 meses, como substituta. Tinha acabado o estágio há pouco tempo, e pensei que era uma óptima oportunidade de aprender, com trabalho de campo. Mesmo não gostando da vila, aceitei.

Como o tempo foi passando e o veterinário que vinha substituir morreu num acidente com os copos, fui ficando por tempo indeterminado. Pelo menos até agora. É o que digo sempre.

Dou consultas no gabinete. Trazem-me sobretudo cães e gatos, mas como a vila subsiste da agricultura tenho muitas vacas e cavalos pra tratar. Para dizer a verdade detesto gatos, e a adoração é recíproca. Sempre que aqui aparecem, o caos instala-se. Estive até agora a limpar a merda que um fez quando lhe tirei um tubo de ferro galvanizado do estômago. Ás vezes acordo ansiosa pra que só me aparecam cães, que são muito mais meigos e honestos. Ou então simples vacinas, que dão um lucro danado.

Se algum estagiário ou pretendente a veterinário me perguntasse hoje qual o requisito essencial para o ser, diria músculos. Músculos e mais músculos. Já pensei em ir para um ginásio, mas fazer 30km ao fim de um dia de estafa não me agrada muito. Tratar de vacas com 700kg ou cavalos de 800kg não é tarefa fácil.

Dias há em que chego a um estábulo, e me apetece ter sido professora primária. A vaca está a sofrer. Vai parir mas o vitelo está ao contrário dentro do útero. Dispo-me pra ficar apenas em t-shirt, lavo as mãos em sabão perdido, calço as luvas que me chegam às axilas, meto uma mão na enorme vulva enquanto acaricio o lombo com a outra. Um vitelo pode chegar aos 60kg, e virá-lo sozinho continua a não ser fácil. Por vezes são sofrimentos paralelos. O meu, que por falta de confiança julgo nunca ser capaz de resolver o que me pedem, o dos animais, a quem já vi deitar lágrimas silenciosas, e o dos donos, para quem os animais são o ganha-pão.

Já me aconteceu olhar para o lado. E o camponês apercebe-se que tem de ser aberta, e desta vez vai ser mais caro. Mas já me aconteceu virar vitelos à primeira, e trabalhar pro bono. Depende da sorte. E dos músculos. Também já cheguei com o bicho morto, e para não prejudicar a vaca, tem de se cortar aos pedaços, e tirá-los um a um. É horrível para todos.

Parece que consegui.

De volta ao consultório, bebo um martini e lembro-me novamente dos halteres. Devia mesmo ir.

De quando em vez conheço alguém, que nunca consigo manter. Talvez seja da forma das mãos, em pá. Ultimamente tenho saído com um professor do colégio, nem me lembro que disciplina lecciona. Vamos ao cinema ou jantar fora, e ele aproveita para se armar em intelectual. Mas eu sei que me tenho tornado saloia. Empresta-me livros e alguns cd´s, e quando me apetece fodemos. É sempre bom.

Ontem ligam-me fora do horário de expediente, mas como era uma suposta urgência, não disse que não. Como me custou...tinha estado a trabalhar durante todo o fim-de-semana, e já não parava há muito. Não disse que não.

Quando cheguei notei algo estranho. As luzes estavam apagadas, e bati com estrondo no portão ondulado de zinco, para acordar os vizinhos, mas já era tarde. Disse-me um dos dois: ouvimos dizer que não és uma mulher de verdade, ou és? Estamos aqui para comprovar. Até vais ganir como uma vaca! O outro ria-se, enquanto espetava uma garrafa de macieira na boca.

Foderam-me deitados. Estavam demasiado embriagados para se manterem em pé. Eram ridículos. Tudo neles era ridículo. Magoaram-me horrivelmente. Além de me penetrar enquanto houve tesão, batiam-me cruelmente com as costas das mãos. Repito: magoaram-me horrivelmente. Depois de ejacularem, caíram como tordos e adormeceram de imediato.

O alcoól tornou-os inofensivos, mas ainda assim fui à carrinha buscar a minha maleta. Administrei-lhes duas doses de ketamine a cada um. Não queria surpresas. Calcei umas luvas e desinfectei tudo com betadine. Depois puxei a pele do escroto e fiz várias incisões com o bisturi. Peguei nos testículos e cortei-os. Cosi tudo deitei o resto no lixo. Seguiu-se o que me tinha telefonado, e que fora mais bruto. A esse enxertei-lhe o par de colhões na maça de Adão, e o pénis guardei-o num saco que lhe escondi num bolso das calças. Para recordação. Um trabalho muito asseado.

Eram quase 23h. Dirigi-me a casa da vizinha e pedi que chamasse a polícia. Tinha ocorrido uma violação. Muito consternada anuiu. Aguardo.

Só espero que não liguem as sirenes. Detesto o barulho das sirenes.

Penso aquele dia em que o tempo não existe

Lá fora, deparo-me com a rebeldia das cores em todos os tecidos, todas as maneiras de se ser. Aqui, o ar é lúgubre mas respirável. Angustiada, pego no saco das compras pelas abas, com toda a força que consigo sentir, e dirigo-me para as cadeiras reunidas à minha direita. Arrumo os óculos na amálgama mal disposta em que a mercearia se dispõe. Sento-me. Ao subir o corpo, deparo com duas senhoras idosas que me fitam com aquele olhar de fusão soerguida, ao qual já me habituei, por estas horas demasiado caras de (sobre)viver. Conspiram.
Pego Nele e aperto-o entre o suor das minhas palmas e o peito mirrado, há muito fingido por um soutien decadente, tal como a carne que abraça. Junto as pernas, organizo metodicamente a biqueira dos escuros sapatos, encosto o polegar à proeminência de uma fronte rugosa. Sempre com Ele em mim, asfixiado. Esta paixão deixara já demasiadas crateras, estendera para sempre a vontade de partir. Procuro algo. Talvez ajuda, quem sabe um milagre. A própria alma me apodrece, divaga, anseia pelo fim.
Agradeço algo, sem saber bem qual o início e o fim de um agradecimento cínico. Penitencio-me, questionando-me o porquê de o fazer. Peço.
Peço todas as nuvens recheadas de calor e espuma; Peço todos os sentimentos de rafeiros espancados pelos donos; Peço toda a humidade dos desertos secos; Peço toda a cegueira de mil águias; Peço toda a vida que não tive, a que não aproveitei, a que perdi, a que me foi arrancada, como se arrancam as entranhas de um capão, com toda a ira dos homens e inveja dos deuses.
Peço de volta a minha sombra, rogo por ela, imploro, enquanto O aperto cada vez mais nas últimas das minhas preces. Ainda aqui, no silêncio do mármore confinado, e dos sons pálidos de um paraíso prometido. Será assim que termina? Seremos, como reza a estória, pó e terra, e a ela e a ela um dia voltaremos?

Tremo.

Retiro-O cravado da derme mais tenra que a ternura de um amor que existira algum dia, algures, pudera provar. Busco as lentes, o saco move-se. Fala com a sua língua de plástico. Adere à minha mão como um íman. Levanto este corpo débil, ordeno-o que se mova em direcção à porta.
A meio caminho, viro-me e olho-O uma última vez. Uma visão, esta visão! Fixo o olhar, sinto como se me estivesse a acariciar o coração com um sorriso, um sibilar de anunciação, o meu pedido.
As despedidas nunca foram o meu forte. Sugiro um até já em pensamento.

Abro a porta que encerra tudo atrás de mim.

Fruits

Sublimes peças, que nunca foram cantadas
Nunca poderão florir, mesmo com parra pelo chão.
Tantas asas, que nunca encontram o caminho,
O tempo escasseia, o metal enferruja.
Lembramo-nos do estilo de um verão,
As crianças, as crianças...perdidas, sem saber o quê? Neste mundo só encontras o negrume de um céu, escondido nas folhas caídas de um esquecido céu, para que essas mesmas frutas floresçam, num laivo de céu.
Só te conheço com chuva a escorrer no hiato dos globos. Abre-os lentamente. Observa.
Nunca te poderão florir braços, pernas, membros. Nunca te poderão crescer sorrisos, invejas.
Nem num sábado de manhã, em que o bafo (sem aviso) da madrugada estendida noite dentro. Não parecia muito, mas quando me lembro, dessas pessoas e lugares, raramente estavam nos seus devidos lugares, nos seus lugares, naqueles lugares deles, ao sábado de manhã.
Expulsa as ausências, pensa nas histórias, nos tempos a nascerem a poente, a investirem de épocas e de serões, e de sábados de manhã. Como o nosso e os eternamente nossos.
Sei que sabes o meu nome, mas eu não sinto o mesmo. Não culparei a roda por rodar. E todas as minhas canções são graves, mas apenas te digo o que é novo pra mim, e verdadeiro. Porque a roda tem rodado, sem parar de rodar, nesta redoma...a girar, e a pender, ora pra ti, ora pra nós.

O Patinho

Para onde caminhas, patinho feio?
Para onde te insurges, cauda de piano?
Meio palmo e mergulhas num clarão suspenso,
Entre o núcleo e o céu.
Para onde olhas, patinho feio?
Sobre a bruma fechada da matina,
E o cintilar escondido da agreste
Rima que é o vento.
Para onde choras, patinho feio?
Em teus braços despidos de carne
E providos de paz.
Para onde segues? Para onde?

Não há

Não há imagens para isto. Nem as "mil palavras".
Hoje faço copy-paste da simbiose, formato o suor, talvez até os estalidos da luz. Hoje opto pela descrição dos sons, pela narrativa dos olhares, pela frequência de espasmos estendidos no imaginar. Hoje reconheço a minha voz, mastigo-a, cuspo-a. Deito tudo por tudo para que estar em ti não seja mais uma miragem, sonho desfeito e refeito de brisas de um tempo que tanto recordamos. Mais uma vez, hoje faço a zemiobiose, em que o destruído é a cratera aberta em nós pela distância e ignorância. Adapto-me, restringo-me, calculo, suponho, proponho: Deleites apócrifos em que tu, mais eu, mais nós, e só nós, sejamos o último bater de uma tecla de Dó.

Um breve anunciar de partida

Já tinha os tapetes estendidos ao sol a enxugar, e acabei de meter o bolo no forno. Mais 40 minutos e está pronto, não demora nada. Aguarda só mais um pouco, peço-te. A tua companhia é, digamos, essencial, se esse termo existe para um alguém tão não de aqui como tu. Vou fazer uma infusão, há algum sabor especial que te agrade? Tenho vários: angústia, impotência, saudade, é só escolher!
Tens mesmo que ir andando? Pensei que a tua boleia tinha ficado adiada por uns anos, neste carrocel que se transformou a nossa vida...
Estou cabisbaixo, bem vês. Pensativo.
E umas tostas? Han? Excelente ideia, talvez com compota da avó, que tu tanto gostas, ou com manteiga magra. Não? Compreendo, tens que ir.
Vai dar um filme muito interessante na TV com o Charlot, adorava que o visses comigo, é tão divertido. Acho que ias gostar. Nós, com uma manta por cima do colo, a comer tostas com compota e a beber um chá de cumplicidade. Ou então podemos ir para o terraço, com este sol tão quente que tem estado...
Noto um avatar na tua expressão, estás bem?

- Cala-te! Despe-te! Sonho com um último instante, dois corpos entre algo a que não consigo relacionar o vocabulário que me foi dado a conhecer. Deitemo-nos e fundamo-nos num só.

Já se encontra mais claro

Todos os dias algo que se apodera...lentamente. As vezes compreendo, outras ignoro. Como uma parábola ao sol, o pensamento desliza languidamente para o fresco. E mesmo quando compreendo, ignoro. Mal ele insiste, voltando amíude por entre as silvas. Não, não se magoa. Só com a minha ignorância, claro está.
Mas algo mudou em mim, e agora vejo mais perto. A miopia ficou suspensa algures, num tremer mais desajeitado da carne. Levitou primeiro, e depois, bem de mansinho, bateu asas e voou.

Maybe

O poder da indecisão corrompe até o mais breve dos espíritos insinuosos.
Ele ama-me
Ele não me ama
Ele ama-me

Pedido concedido

Lembro-me da Torre de Pisa. Naquela posição há tantas centenas de anos e não há intempérie que a derrube. Nem ventos nem tempestades, nem terramotos nem enchentes. Somos assim. Dobramos mas nunca partimos. Sim, é verdade, estamos bem protegidos. Uma fada, um anjo, e o Bem do nosso lado. Os culpados somos nós e estas cabeças que funcionam mais do que realmente deveriam. Tão fortes que nós somos. Inquebrantáveis. Perante qualquer adversidade, nós somos assim.

Lembro-me, logo ao início, quando ficar por baixo era tão fodido como ler a palavra fodido neste post. Impossível de aceitar. Vamos tolerando, eu menos, bem sei. Mas sabes que não sou mais quem era. Ambos mudámos, teve que ser, resolução dos tempos que por nós vão passando. Um aniversário e tanto já lá vai, parece mentira.

Parece um sonho, sonhado entre colchão e cobertores, encolhido, com as mãos bem juntinhas a pedir: "Eu quero, por favor, Senhor Jesus, uma namorada bonita, inteligente, simpática, carinhosa, que goste muito de mim, e que eu goste muito dela! E não pode ser mais alta do que eu! E tem que ser solteira! E que me faça festinhas! E que a minha família goste dela! E é só! Obrigado, Amén.

Negra como a noite

Runs slowly like a pray,
your mind couldn´t stay
If the world stops to breathe,
then he´ll realize what´s greed

More than a thousand punches,
more than a million sentences
The mighty triumph will rise,
the corpse you inhabitate in disguise

Hear the vocals on the street,
run from others when you meet
Don`t walk away in silence
Cause my soul is your guidence

Diário de um tonto #2

Talvez hoje me lembre como é bom o escorrer de uma lágrima. Imagem 3D de um amor repulsivo que se esconde no teu imaginar. Talvez hoje me reconheça quando uma figura estilizada me acenar ao espelho, sempre tão vaga como os pirilampos no início da primavera. Incandescentes e sombrios. Hoje é o dia que me lembro de um primeiro afagar de saudade ao que já foste para mim - tudo, diria alguém que não eu - de entre as nossas sombras de mão dada. Lembro-me bem, acredita. Recordo o tempo que o sol nos calava essa lágrima, essa metonímia de amores e horrores mal embevecidos. Estou aqui, e aqui, e aqui. Omnipresente, como me querias. E tu, abandonaste o navio pela proa? Talvez ainda hoje me lembre, antes do último suspiro, o quão fugaz foi aquela nossa vida. Aquele nosso encontro.
Pretendo lembrar, ainda hoje. E sempre.

Diário de um tonto

Hoje foste minha. Como sempre foste, desde os primeiros murmúrios de alguém que nos habitou e nos tratava pelo nome. Foste bela e eterna, foste algo que esperava há muito. Minha. Por entre devaneios e seda escura, a minha mão estendeu-se sobre o teu rosto, e as palavras surgiram: «És a mulher mais cheia de tudo que sei!». E foi aqui que me amaste. Que confiaste, enfim.
Uma palavra a ti.

Entrou pela fechadura

Sorrateiro, tropeçou num chinelo e engoliu em seco. Eram já três da matina no relógio digital do quarto quando se deu um soerguimento descuidado no bolso direito das jeans. O telemóvel vibrou e a notícia era mórbida. A noite é minha, pensou...

And i´m feeling...

Tenho 31 anos. Consigo simultaneamente estar viva e morta. Hoje vou para a noite.

Há 11 meses, peguei numa mochila e enchi-a de sonhos. Telefonei ao meu irmão para me ficar com a cadela, e pedi à Teresa, a minha vizinha, para amiúde, dar uma vista de olhos no meu apartamento, não fosse o diabo tecê-las.

Estava felicíssima. Trabalhava num escritório de advogados, e tinha ganho recentemente um caso importantíssimo. Os dois assassinos em sério, que abalaram a opinião pública há três anos, lembram-se? Fui eu quem os meteu dentro e devolveu ordem ao mundo. Eu e mais alguém, claro está. Durante dois anos não tive nada que se assemelhasse a descanso. Nem férias, nem dias santos, feriados...Fui uma mula a trabalhar, como costumava dizer o meu velho. Mas as perspectivas eram boas. Além de dois meses de férias, o meu patrão deu-me uma boa maquia de prémio e ainda sibilou uma vaga em aberto no quadro. Tentador, para uma advogada em final de estágio.

Como recompensa a mim mesma, decidi viajar. Pensei, será a viagem da minha vida. E foi.

Uma semana depois, embarquei com destino a Lima. Desde criança que tinha aquela comichão no pescoço de cada vez que pronunciavam o nome Maias, Aztecas ou Incas. Soava-me a um misto de imponência e mistério.

Tinha ido a uma agência de viagens que existia ao fundo da minha rua, decidida a escolher um destino exótico. Nem foi preciso entrar. Na porta tinham um anúncio de duas semanas de férias na América do Sul por um preço bastante em conta. E ainda incluía uma visita guiada de dois dias a Machu Pichu. Não pensei duas vezes.

Cheguei a Lima num domingo de tarde. Nesse dia já só tive tempo e disposição para chegar ao hotel, desfazer a mala, tomar um duche e cama. Digamos que o quarto não impressionava tanto quanto o hall de entrada do hotel.

No dia seguinte, perturbada com o jet lag, ou talvez a temperatura que se fazia sentir, só saí de casa à noite. Decidi conhecer a cidade e a sua vida nocturna. Entrei num taxi.

Por favor, leve-me à melhor discoteca da cidade! Tentei, no meu melhor castelhano.

Ou o taxista não era peruano, ou aquela era mesmo a melhor discoteca da cidade. Que lixo. Deveria ter perguntado por uma que fosse frequentada por mulheres, tal era a abundância de chicotes na zona. Sentei-me ao balcão, com um cigarro numa mão e um vodka noutra. Depois de três rodadas lá me senti corajosa o suficiente pra desandar dali para fora. Apanhei outro taxi.

Estranhamente, parece que me esperavam. A rua do hotel, qualquer lugar, pretendo sair daqui. Gracias.

Uma divisão em plástico apartava-me do condutor. As portas estavam trancadas. Nunca lhe cheguei a ver a cara, enquanto lhe ordenava que voltasse na outra direcção. Andámos durante pelo menos duas horas. Quando o carro parou, aproximaram-se dois homens de capuz, pegaram-me pelos braços, e arrastaram-me para dentro de uma casa. Fiquei trancada no escuro toda a noite, enquanto gritava e chorava. Tudo o que tinha, não estava ali. O meu telemóvel, o meu carro, a minha casa, a minha liberdade, luz. Era só eu, ali, trancada no escuro.

Julguei ser manhã, pois pelas frestas das janelas avistava-se a luz do sol. Novamente dois homens.

Acordei nua e amarrada. Tinham-me vendado. Fui violada vezes sem conta. Não sentia nada. O corpo, a alma, nada. Afinal perdera também a dignidade. Não comi, não bebi. Apenas estava presente, para servir alguém. Algum animal, ou vários, deliciavam-se com um naco de carne morta. Violavam-me e espancavam-me. Desmaiava e acordava.

A última vez que acordei foi no hospital. Estava numa maca, sem forças, desidratada. Senti alguém em cima de mim. Novamente.

Hoje vou para a noite. Passados 11 meses, a minha vida transformou-se completamente. Perdi o emprego, por ser seropositiva, estou mutilada e desfigurada. Perdi vários órgãos internos, não tenho sensibilidade na zona genital, tenho cortes no corpo todo.

Só saio de casa à noite. Ponho alguma maquiagem, uso uma roupa agradável, e saio. Espero hoje ter sorte. Espero que hoje me amem.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Faísca

Chispa; partícula candente; raio; centelha; falaviska; ISKRA.