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quarta-feira, agosto 31, 2005

Esta mulher

Ia já a caminho de casa, quando decidiu parar na farmácia junto à estação de rodoviária. Não a habitual, pra não dar nas vistas, mas aquela perto da antiga casa dos seus pais, que frequentava em petiz. Provavelmente serão outros farmacêuticos, talvez até já nem me reconheçam, pensou. Entra e dirige-se ao balcão, onde aguarda a sua vez. É atendida por um baixote bonacheirão que lhe pergunta entre dentes: diga, por favor? Queria um teste desses de gravidez, tipo Predictor. Predictor era muito caro, mas o simpático homem lá lhe arranja um de semelhante efeito por metade do preço. Esconde-o rapidamente na mala sem fundo, para que ninguém se aperceba. Paga, o que à primeira vista lhe parece exagerado, mas depois de intrincadas cogitações assume que talvez seja até um oráculo bastante em conta. E afinal, saber algo tão importante, não valeria a dispensa de uns trocos?

Anormalmente calma, bailou por entre as cores da calçada, até avistar a porta de madeira opaca. Ao entrar, poisa a mala na companhia das chaves e telemóvel, na escrivaninha de pinho claro, que lhe dera a sogra como prenda de casamento. Acorre à cozinha para matar a sede, e, quem sabe, desatar o nó no estômago. Liga a TV, ignora, desliga. Dirige-se à sala, olhando a mala de soslaio. Senta-se no sofá, depois de descalçar os sapatos que lhe vincam a carne. Surge um primeiro pensamento. E o segundo. E não aguenta mais, não quer aguentar mais. Afinal, ele está já ali na mala, e agora que lhe veio a vontade de fazer chichi até calha bem.

Despe as cuecas, e enquanto urina sobre o teste, tenta imaginar o peso de ser mãe. Só a palavra sugere um misto de temor e responsabilidade. Naqueles breves instantes, consegue apenas imaginar as horríveis doenças que suplica que não atinjam um possível feto, mas pensa que sim. Naquele momento, o seu rebento padecerá de todos os males do mundo conjugados em dor e traduzidos num sofrimento atroz. Tudo numa só vida. Numa só existência. Agora aguarda os quatro minutos que vêm a negrito nas instruções. Pensa, vou fazer um chá enquanto aguardo. Aquece demais a chávena e queima os lábios. Vai à varanda, não se vê vivalma. É segunda de manhã, e quase todos labutam. Ela é uma das excepções. Pediu ao patrão para sair mais cedo, pois sentia-se mal, enjoada. Prenúncio? Já saberá. Volta à casa de banho e encosta-se à porta. Se for cor-de-rosa...tudo mudará. Tudo. Um filho, o séquito, um renascer na relação. Carne do meu sangue, da minha alma. É cor de rosa.

Tinha planeado mil e uma formas de contar ao marido. Encenações, tons de voz, surpresas. Mas disse-lhe às escuras, quando se abraçaram depois de fazer amor. Disse-lhe, estou grávida. E ele beijou-a.

Para já era segredo de ambos. Pelo menos para já. Mais tarde outros se aperceberam, ora pela frequência de indisposições, ora pelo incessante sorriso estampado. Ia ser mãe.

Por entre consultas, lazer e trabalho, ordem e bagunça, gritos e solidão, o tempo foi passando. Passando.

Ao quarto mês, a consulta da praxe. Tira o avental, toma um banho e prepara-se. Enfia a barriga atrás do volante e segue com o rádio em off. Concentra-se.

Já no consultório, pousa a carteira e senta-se. Por entre apertos de mão e resumos, diz-lhe o médico: dispa-se e deite-se na maca. Agora abra as pernas. Os ginecologistas têm aquele velho truque. Quando a mulher apoia as pernas nos estribos, começam a disparar perguntas sem qualquer relação, para que, por momentos, ela se esqueça da posição impudica em que se encontra. Por vezes resulta. Geralmente não. Então pergunta-lhe se o sente mexer. Dantes sim, mas cada vez menos. É normal?

Um avatar. O rosto do médico envelhece, de repente. Ela apoia-se nos braços e pergunta-lhe: o que se passa, Sr. Dr.? Ele diz-lhe: vista-se!, quase como se não a tivesse ouvido. Ela insiste: o que se passa, Doutor? Responde-lhe o médico: temos um problema, o feto está morto.

Ela está silenciosa e o seu rosto não diz nada.

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