O Peso dos Halteres
Comecei há quase 13 anos. Vai fazer agora no Domingo de Ramos. Cheguei no meu Opel bordeaux de 87, com o Nero como única companhia. Entretanto morreu de esgana, e nunca mais quis nenhum meu. Bastam-me os outros.
Inicialmente era suposto ficar apenas 2 ou 3 meses, como substituta. Tinha acabado o estágio há pouco tempo, e pensei que era uma óptima oportunidade de aprender, com trabalho de campo. Mesmo não gostando da vila, aceitei.
Como o tempo foi passando e o veterinário que vinha substituir morreu num acidente com os copos, fui ficando por tempo indeterminado. Pelo menos até agora. É o que digo sempre.
Dou consultas no gabinete. Trazem-me sobretudo cães e gatos, mas como a vila subsiste da agricultura tenho muitas vacas e cavalos pra tratar. Para dizer a verdade detesto gatos, e a adoração é recíproca. Sempre que aqui aparecem, o caos instala-se. Estive até agora a limpar a merda que um fez quando lhe tirei um tubo de ferro galvanizado do estômago. Ás vezes acordo ansiosa pra que só me aparecam cães, que são muito mais meigos e honestos. Ou então simples vacinas, que dão um lucro danado.
Se algum estagiário ou pretendente a veterinário me perguntasse hoje qual o requisito essencial para o ser, diria músculos. Músculos e mais músculos. Já pensei em ir para um ginásio, mas fazer 30km ao fim de um dia de estafa não me agrada muito. Tratar de vacas com 700kg ou cavalos de 800kg não é tarefa fácil.
Dias há em que chego a um estábulo, e me apetece ter sido professora primária. A vaca está a sofrer. Vai parir mas o vitelo está ao contrário dentro do útero. Dispo-me pra ficar apenas em t-shirt, lavo as mãos em sabão perdido, calço as luvas que me chegam às axilas, meto uma mão na enorme vulva enquanto acaricio o lombo com a outra. Um vitelo pode chegar aos 60kg, e virá-lo sozinho continua a não ser fácil. Por vezes são sofrimentos paralelos. O meu, que por falta de confiança julgo nunca ser capaz de resolver o que me pedem, o dos animais, a quem já vi deitar lágrimas silenciosas, e o dos donos, para quem os animais são o ganha-pão.
Já me aconteceu olhar para o lado. E o camponês apercebe-se que tem de ser aberta, e desta vez vai ser mais caro. Mas já me aconteceu virar vitelos à primeira, e trabalhar pro bono. Depende da sorte. E dos músculos. Também já cheguei com o bicho morto, e para não prejudicar a vaca, tem de se cortar aos pedaços, e tirá-los um a um. É horrível para todos.
Parece que consegui.
De volta ao consultório, bebo um martini e lembro-me novamente dos halteres. Devia mesmo ir.
De quando em vez conheço alguém, que nunca consigo manter. Talvez seja da forma das mãos, em pá. Ultimamente tenho saído com um professor do colégio, nem me lembro que disciplina lecciona. Vamos ao cinema ou jantar fora, e ele aproveita para se armar em intelectual. Mas eu sei que me tenho tornado saloia. Empresta-me livros e alguns cd´s, e quando me apetece fodemos. É sempre bom.
Ontem ligam-me fora do horário de expediente, mas como era uma suposta urgência, não disse que não. Como me custou...tinha estado a trabalhar durante todo o fim-de-semana, e já não parava há muito. Não disse que não.
Quando cheguei notei algo estranho. As luzes estavam apagadas, e bati com estrondo no portão ondulado de zinco, para acordar os vizinhos, mas já era tarde. Disse-me um dos dois: ouvimos dizer que não és uma mulher de verdade, ou és? Estamos aqui para comprovar. Até vais ganir como uma vaca! O outro ria-se, enquanto espetava uma garrafa de macieira na boca.
Foderam-me deitados. Estavam demasiado embriagados para se manterem em pé. Eram ridículos. Tudo neles era ridículo. Magoaram-me horrivelmente. Além de me penetrar enquanto houve tesão, batiam-me cruelmente com as costas das mãos. Repito: magoaram-me horrivelmente. Depois de ejacularem, caíram como tordos e adormeceram de imediato.
O alcoól tornou-os inofensivos, mas ainda assim fui à carrinha buscar a minha maleta. Administrei-lhes duas doses de ketamine a cada um. Não queria surpresas. Calcei umas luvas e desinfectei tudo com betadine. Depois puxei a pele do escroto e fiz várias incisões com o bisturi. Peguei nos testículos e cortei-os. Cosi tudo deitei o resto no lixo. Seguiu-se o que me tinha telefonado, e que fora mais bruto. A esse enxertei-lhe o par de colhões na maça de Adão, e o pénis guardei-o num saco que lhe escondi num bolso das calças. Para recordação. Um trabalho muito asseado.
Eram quase 23h. Dirigi-me a casa da vizinha e pedi que chamasse a polícia. Tinha ocorrido uma violação. Muito consternada anuiu. Aguardo.
Só espero que não liguem as sirenes. Detesto o barulho das sirenes.

