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quarta-feira, agosto 31, 2005

Penso aquele dia em que o tempo não existe

Lá fora, deparo-me com a rebeldia das cores em todos os tecidos, todas as maneiras de se ser. Aqui, o ar é lúgubre mas respirável. Angustiada, pego no saco das compras pelas abas, com toda a força que consigo sentir, e dirigo-me para as cadeiras reunidas à minha direita. Arrumo os óculos na amálgama mal disposta em que a mercearia se dispõe. Sento-me. Ao subir o corpo, deparo com duas senhoras idosas que me fitam com aquele olhar de fusão soerguida, ao qual já me habituei, por estas horas demasiado caras de (sobre)viver. Conspiram.
Pego Nele e aperto-o entre o suor das minhas palmas e o peito mirrado, há muito fingido por um soutien decadente, tal como a carne que abraça. Junto as pernas, organizo metodicamente a biqueira dos escuros sapatos, encosto o polegar à proeminência de uma fronte rugosa. Sempre com Ele em mim, asfixiado. Esta paixão deixara já demasiadas crateras, estendera para sempre a vontade de partir. Procuro algo. Talvez ajuda, quem sabe um milagre. A própria alma me apodrece, divaga, anseia pelo fim.
Agradeço algo, sem saber bem qual o início e o fim de um agradecimento cínico. Penitencio-me, questionando-me o porquê de o fazer. Peço.
Peço todas as nuvens recheadas de calor e espuma; Peço todos os sentimentos de rafeiros espancados pelos donos; Peço toda a humidade dos desertos secos; Peço toda a cegueira de mil águias; Peço toda a vida que não tive, a que não aproveitei, a que perdi, a que me foi arrancada, como se arrancam as entranhas de um capão, com toda a ira dos homens e inveja dos deuses.
Peço de volta a minha sombra, rogo por ela, imploro, enquanto O aperto cada vez mais nas últimas das minhas preces. Ainda aqui, no silêncio do mármore confinado, e dos sons pálidos de um paraíso prometido. Será assim que termina? Seremos, como reza a estória, pó e terra, e a ela e a ela um dia voltaremos?

Tremo.

Retiro-O cravado da derme mais tenra que a ternura de um amor que existira algum dia, algures, pudera provar. Busco as lentes, o saco move-se. Fala com a sua língua de plástico. Adere à minha mão como um íman. Levanto este corpo débil, ordeno-o que se mova em direcção à porta.
A meio caminho, viro-me e olho-O uma última vez. Uma visão, esta visão! Fixo o olhar, sinto como se me estivesse a acariciar o coração com um sorriso, um sibilar de anunciação, o meu pedido.
As despedidas nunca foram o meu forte. Sugiro um até já em pensamento.

Abro a porta que encerra tudo atrás de mim.

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