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quarta-feira, agosto 31, 2005

And i´m feeling...

Tenho 31 anos. Consigo simultaneamente estar viva e morta. Hoje vou para a noite.

Há 11 meses, peguei numa mochila e enchi-a de sonhos. Telefonei ao meu irmão para me ficar com a cadela, e pedi à Teresa, a minha vizinha, para amiúde, dar uma vista de olhos no meu apartamento, não fosse o diabo tecê-las.

Estava felicíssima. Trabalhava num escritório de advogados, e tinha ganho recentemente um caso importantíssimo. Os dois assassinos em sério, que abalaram a opinião pública há três anos, lembram-se? Fui eu quem os meteu dentro e devolveu ordem ao mundo. Eu e mais alguém, claro está. Durante dois anos não tive nada que se assemelhasse a descanso. Nem férias, nem dias santos, feriados...Fui uma mula a trabalhar, como costumava dizer o meu velho. Mas as perspectivas eram boas. Além de dois meses de férias, o meu patrão deu-me uma boa maquia de prémio e ainda sibilou uma vaga em aberto no quadro. Tentador, para uma advogada em final de estágio.

Como recompensa a mim mesma, decidi viajar. Pensei, será a viagem da minha vida. E foi.

Uma semana depois, embarquei com destino a Lima. Desde criança que tinha aquela comichão no pescoço de cada vez que pronunciavam o nome Maias, Aztecas ou Incas. Soava-me a um misto de imponência e mistério.

Tinha ido a uma agência de viagens que existia ao fundo da minha rua, decidida a escolher um destino exótico. Nem foi preciso entrar. Na porta tinham um anúncio de duas semanas de férias na América do Sul por um preço bastante em conta. E ainda incluía uma visita guiada de dois dias a Machu Pichu. Não pensei duas vezes.

Cheguei a Lima num domingo de tarde. Nesse dia já só tive tempo e disposição para chegar ao hotel, desfazer a mala, tomar um duche e cama. Digamos que o quarto não impressionava tanto quanto o hall de entrada do hotel.

No dia seguinte, perturbada com o jet lag, ou talvez a temperatura que se fazia sentir, só saí de casa à noite. Decidi conhecer a cidade e a sua vida nocturna. Entrei num taxi.

Por favor, leve-me à melhor discoteca da cidade! Tentei, no meu melhor castelhano.

Ou o taxista não era peruano, ou aquela era mesmo a melhor discoteca da cidade. Que lixo. Deveria ter perguntado por uma que fosse frequentada por mulheres, tal era a abundância de chicotes na zona. Sentei-me ao balcão, com um cigarro numa mão e um vodka noutra. Depois de três rodadas lá me senti corajosa o suficiente pra desandar dali para fora. Apanhei outro taxi.

Estranhamente, parece que me esperavam. A rua do hotel, qualquer lugar, pretendo sair daqui. Gracias.

Uma divisão em plástico apartava-me do condutor. As portas estavam trancadas. Nunca lhe cheguei a ver a cara, enquanto lhe ordenava que voltasse na outra direcção. Andámos durante pelo menos duas horas. Quando o carro parou, aproximaram-se dois homens de capuz, pegaram-me pelos braços, e arrastaram-me para dentro de uma casa. Fiquei trancada no escuro toda a noite, enquanto gritava e chorava. Tudo o que tinha, não estava ali. O meu telemóvel, o meu carro, a minha casa, a minha liberdade, luz. Era só eu, ali, trancada no escuro.

Julguei ser manhã, pois pelas frestas das janelas avistava-se a luz do sol. Novamente dois homens.

Acordei nua e amarrada. Tinham-me vendado. Fui violada vezes sem conta. Não sentia nada. O corpo, a alma, nada. Afinal perdera também a dignidade. Não comi, não bebi. Apenas estava presente, para servir alguém. Algum animal, ou vários, deliciavam-se com um naco de carne morta. Violavam-me e espancavam-me. Desmaiava e acordava.

A última vez que acordei foi no hospital. Estava numa maca, sem forças, desidratada. Senti alguém em cima de mim. Novamente.

Hoje vou para a noite. Passados 11 meses, a minha vida transformou-se completamente. Perdi o emprego, por ser seropositiva, estou mutilada e desfigurada. Perdi vários órgãos internos, não tenho sensibilidade na zona genital, tenho cortes no corpo todo.

Só saio de casa à noite. Ponho alguma maquiagem, uso uma roupa agradável, e saio. Espero hoje ter sorte. Espero que hoje me amem.

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